E agora, pessoal

E agora, pessoal?

Nesta segunda feira, nasceu mais um neto. O quinto. Ele tem cabelos pretos, não é dos maiores, já abre os olhos e tem cara de gente mansa. Houve quem dissesse que ele se parece com o irmão e tem o sorriso da irmã. Ainda sem nome, ele dá o seu testemunho de que a vida segue em frente.

Vendo a enfermeira dar o primeiro banho no moleque, na pia ao lado da parede de vidro que separa o berçário do saguão onde ficam os parentes aflitos e entusiasmados, me lembrei do nascimento do nosso primogênito na maternidade do Dr. Arnaldo, que já não existe mais há décadas. Embora os tempos políticos fossem duros e o tal milagre brasileiro já desse sinais de cansaço, não me recordo de ter sentido inseguranças em relação ao futuro que nos esperava. Tudo indicava que a vida seguiria fluindo sem grandes riscos e sobressaltos, mesmo sabendo que nos mudaríamos logo depois para a Paraíba, para trabalhar na administração da universidade e dar aulas. Tanto é verdade que, depois daquele, nasceram mais quatro filhos.

Há alguns anos, no fim da tarde de um sábado ensolarado, fui a um show da banda de rock do pai do recém-nascido, lá na Pedra da Cebola. O público era formado por rapazes e moças entre quatorze e vinte e poucos anos. Todos de banho tomado, roupa limpa e colorida, com cara animada, apostando nas possibilidades de diversão daquela noite de música ao vivo. Via-se que eram pessoas que se preparavam para ganhar mundo, sob as melhores expectativas dos pais.

A empolgação daqueles adolescentes tinha razão de ser: eles estavam sendo informados de forma sistemática que o futuro era promissor. Para a felicidade geral, alardeava-se que o país estava crescendo de forma acelerada e consistente e anunciava-se o surgimento de milhares de oportunidades para a realização profissional de quem se capacitasse adequadamente. De todo lado surgiam receitas infalíveis de como fazer sucesso e ganhar dinheiro. Estudar era a primeira delas, mesmo que as mensalidades fossem salgadas. Crédito abundante e prestações reduzidas facilitavam a compra de praticamente tudo que se mostrasse necessário para realizar o sonho individual, gerado por uma carga publicitária massacrante do tipo “compre baton”. Coisa que as gerações anteriores não haviam experimentado. Até recentemente vivia-se perfeitamente bem com muito pouco. Não me lembro de ter perdido noite de sono por não ter duas calças Lee ao mesmo tempo.

Mesmo que a economia pudesse gerar ocupação para toda aquela rapaziada preparada e disposta, por certo ela não seria capaz de oferecer remuneração em níveis compatíveis com as expectativas de consumo de bens e serviços que estavam sendo cravadas na alma de cada qual. Embora observasse essa impossibilidade, eu não poderia supor os efeitos dessa impossibilidade em tão curto prazo. Sempre soube que frustrações pessoais em grande escala podem se tornar algo perigoso e explosivo. Enchem as ruas e dão muito trabalho para políticos e autoridades de plantão. É bem provável que uma boa parte daquela platéia animadíssima de então tenha participado da manifestação de insatisfação dos cem mil, que assisti da calçada na Reta da Penha pensando no assunto.

Está cada vez mais difícil imaginar como andará o mundo quando esse neto recém-nascido estiver com seus vinte anos. Lendo e conversando com pessoas bem informadas, vejo que ninguém se aventura a projetar qualquer cenário a médio prazo. Pelo que percebo, a situação atual desafia estudiosos e formuladores e desorienta até mesmo videntes e cartomantes.

Vitória, 23 de Julho de 2013

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

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