Rei do Carapau

Rei do Carapau

Não tenho visto mais as tartarugas vindo à tona para respirar. Imagino que tenham ido nadar em outras águas. Em compensação, dia desses avistei três cardumes fazendo evoluções no mar da Curva da Jurema. Eram pequenos e, pela época, deviam ser de carapau.

Não sei se o leitor já viu um cardume ao vivo, indo de um lado para o outro, sumindo e reaparecendo. Um olhar atento localiza um cardume de longe, com alguma facilidade. A superfície do mar fica mais escura e meio encapelada, em função da movimentação dos peixes.

Tem gente que vive de localizá-los em mar aberto para orientar o lançamento da rede de arrasto. Falando nisso, na praia de Itapoã a pesca de manjuba já está a pleno vapor. É um bom programa de final de tarde pra quem gosta de estar à beira mar. Em breve será o tempo das sardinhas.

Tem gente que vive de filmar peixes para programas de TV. Os cardumes são flagrados de pertinho, de dentro mesmo. É sempre um espetáculo vivo e colorido. Tão logo se acostumam com os mergulhadores, os holofotes e as câmeras, os peixes voltam a se movimentar de forma compassada. Esbaforidos, mesmo, eles ficam quando são atacados por seus predadores. Já vi cenas eletrizantes de ataque desfechado por um leão marinho faminto e de um outro, enigmático, de baleias que cercavam um cardume enorme, agindo de forma inteiramente coordenada.

Voltando ao mar daqui de perto, é bom lembrar que março é tempo de carapau. Normalmente eles chegam em cardumes, junto com os ventos fracos de fevereiro, e nadam por aqui durante uns dois meses. Não mais do que isso. Não sei dizer de onde eles vêem nem pra onde vão.

Para quem não conhece, o carapau é um peixe prateado com escamas esverdeadas na parte de cima. Trata-se de animal arisco e bem malandro, que rouba isca ao menor descuido. É parente de pampo, xaréu, chicharro, olho de boi e muitos outros. Deve ser o menor da família, mas é ligeiro e muito valente. Quando se vê fisgado, enfrenta o pescador nadando para o fundo.

Atividade coletiva que proporciona fortes emoções, a pescaria de carapau é também uma disputa entre pescadores. Poderia muito bem ser elevada à condição de esporte de competição, com campeonatos anuais para aficionados de diferentes categorias e idades. Digo isso por saber que pegar grandes quantidades deles exige equipamento adequado, conhecimentos técnicos, concentração, reflexos apurados e, sobretudo, pensamento positivo e muita disposição para enfrentar gozação durante horas seguidas.

Mesmo em um barco de uns quatro metros, acontece, e com boa frequência, o pescador da popa cansar de matar carapau e o que está sentado na proa nem ver sinal deles. Isso, com os dois usando a mesma isca. E se algum invejoso ousar lançar linha nas águas do colega afortunado, aí é que ele não pega mais nada até o fim do dia. A urucubaca do carapau pode atingir uma embarcação inteira, deixando sua tripulação a ver navios enquanto a do barco ao lado vai enchendo o balaio. A bordo, a gozação entre amigos pela falta de peixe faz parte da brincadeira, mas entre desafetos, pode ser perigosa.

Para pescar carapau basta uma varinha de bambu retinha e de ponta bem fina que, por medida de segurança, deve ser encastoada até uns dois palmos, em direção ao cabo. É recomendável usar nylon bem fino, anzol pequeno e chumbo levinho. A isca oficial é o camarão descascado, de preferência o do lameirão, que é menor e mais durinho. Um macete de veterano: descascar e cortar o camarão com antecedência economiza tempo e ajuda você a ganhar campeonatos.

Vitória, 01 de março de 2012
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA

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