As mudanças acontecidas neste jornal foram radicais. Junto com a diminuição do tamanho das folhas, vieram a repaginação geral dos conteúdos, os ajustes na forma de apresentar as notícias, as alterações na linguagem, a renovação dos padrões gráficos e muito mais. Sobrou, inclusive, pra turma que escreve crônicas quinzenais. Mudamos de lugar e de dimensão.
Tenho acompanhado as reações dos leitores pela seção de cartas e nas conversas com quem conheço. Além dos elogios que iniciativas desse porte fazem brotar em boa quantidade, vejo que tem muita gente a favor das mudanças, achando bom que tenha virado um tablóide. Dizem que ficou mais fácil de segurar e de virar as páginas. Em compensação, conheço uns tantos leitores assíduos que já estão começando a sentir os primeiros sinais de saudades das páginas grandes, que precisavam ser dobradas para que pudessem ser lidas mais de perto.
Nessa coisa de tamanho de jornal, confesso-me um conservador. Não tenho teorias, nem argumentações técnicas em favor do formato maior, apenas posso dizer que estava perfeitamente acostumado com o jornal do jeito que ele era. Faz parte da minha rotina diária, ler as notícias ainda na mesa do café da manhã. Na cadeira que sento, propositadamente de costas para a janela, existe espaço suficiente para manipular páginas grandes com conforto, ao meu bel prazer. Com a casa já quase sem filhos, espaço é coisa que não falta por aqui. Mesmo porque, só leio jornal depois de ter comido e bebido, na mesa já vazia. E de traz pra frente, sempre.
Nunca tive inveja das pessoas que compravam, carregavam ou liam o jornal que circula, faz tempo, em formato tablóide. Posso dizer que jamais coloquei em questão interromper a assinatura que mantenho há mais de vinte anos, pelo fato de o jornal que leio ter dimensões maiores do que as do seu principal concorrente. Confesso, isto sim, que ando com pouca disposição para ler sobre os fatos que estão acontecendo.
É bom que se diga que a mudança atingiu também a minha rotina de cronista quinzenal. De agora em diante, terei de entregar o que redijo até o começo da tarde da segunda feira, para ser publicado na terça. Antes, eu podia enviar as palavras até quarta-feira. Não é uma reclamação, mas neste exato momento, nesta manhã chuvosa de domingo, estou tendo a comprovação dos impactos do novo calendário sobre o sossego dos meus fins de semana. Como nunca escrevo com antecedência, lá vou eu ter que me adaptar a mais essa novidade na minha vida.
Estou dizendo tudo isso porque pensava escrever sobre um assunto que tem ocupado as minhas emoções nesses últimos dias. Mas, diante da tela vazia, não pude escapar das inquietações provocadas pelas mudanças que aconteceram neste jornal.
Na verdade, pretendia tratar das falcatruas que estão sendo mostradas aos brasileiros, pela imprensa, durante os últimos dias. Estou horrorizado com o descalabro que tenho tomado conhecimento. Um partido político da república, senadores, deputados, autoridades e funcionários se especializaram em saquear dinheiros públicos por vias diretas e indiretas, mediante esquemas profissionais e familiares. Comprova-se que um grupo político resolveu se intitular sócio proprietário do cofre do Ministério dos Transportes e que o faz como se fosse o mais puro direito adquirido.
A prática descarada do toma-lá-dá-cá ganhou a condição de atividade rotineira, exercida em escala federal, resguardada pela certeza da impunidade: ninguém vai preso, ninguém devolve o que roubou. Pelo que se fica sabendo, tal situação se consolidou com o passar dos últimos seis ou oito anos, por obra e graça do loteamento da coisa pública, dos conchavos montados nas altas esferas. As informações diárias dão conta da existência de comparsas e reféns situados dentro e fora do governo federal.
Mais uma vez, ameaças e chantagens estão presentes no noticiário político, agora, mais do que nunca, sendo utilizadas como instrumentos para azeitar e perpertuar o sistema montado. Meu pai gostava de usar uma expressão que, embora tenha caido em desuso faz tempo, me parece muito apropriada para compor manchete de primeira página de qualquer jornal mais moderninho: bando de salafrários.
Vitória, 24 de Julho de 2011
Alvaro Abreu
Escrita para A Gazeta.