Microondas

Microondas

O nosso velho forno microondas quebrou novamente. Nós o compramos há pouco mais de vinte anos, ainda na caixa, de uma amiga que resolveu se mudar de mala e cuia para o exterior. Ela o trouxera de Manaus, como boa vantagem em termos de preço e qualidade. Ele é bem grande e fácil de usar. Só realiza as operações básicas, tem fachada discreta e relógio de bom tamanho.
Confesso que não sou um perito em uso do microondas. Sou dos que usam somente a tecla de um minuto, quase sempre pra esquentar comida ou secar bambu. Aquecido, o bambu fica bufando e a cozinha ganha um cheirinho de cana queimada. Banana da terra fica uma maravilha em três minutos, na alta.
Minha mulher conta que viu um microondas pela primeira vez em 1969, em Nova York. Todos que estavam em volta do vendedor falante ficaram embasbacados diante da mágica da pipoca sendo feita pela ação de um calor misterioso, que não esquentava o papel do saquinho, mas fazia o milho explodir. Era a modernidade tecnológica entrando na cozinha.
Quando o nosso microondas parou de funcionar pela primeira vez, ganhamos um novo de presente. Era um modelo super sofisticado, desses que ensinam muitas coisas, reclamam quando você digita errado, calculam automaticamente o tempo de cozimento em função do objeto a ser cozinhado e apitam quando está pronto. Mas, para tanto, era indispensável ler o manual a cada tentativa de uso ou guardar na memória todos os procedimentos obrigatórios e na sequência correta. Além disso, era impossível ler as horas a mais de 3 metros, o que é falha grave de design funcional. Como detesto manuais e já sofria das vistas, preferi mandar consertar o velho, que voltou para o seu lugar.
Depois de consertá-lo mais uma vez, há uns dois anos, seu Natal, o faz tudo de Santa Lúcia, me disse que seria muito difícil consertá-lo novamente por absoluta falta de uma tal placa de acionamento. Sendo assim, desta vez, resolvemos apelar para a internet. Para nossa surpresa, foi mais fácil comprar na rede do que ir ao centro da cidade para garimpar uma raridade daquela. E saiu bem mais barato, se computados o gasto com a gasolina e o valor do estacionamento. Previdente que sou, tratei de encomendar três unidades, que foram entregues em quatro dias, conforme prometido.
Sem querer me gabar, digo que me atrevi a tentar substituir a tal placa defeituosa, munido de uma simples chave de fenda phillips. O pessoal da torcida aproveitou para dar uma boa limpeza nas partes internas, constatando que não havia sequer um ponto de ferrugem. Em pouco mais de vinte minutos, lá estava o nosso velho e valente microondas roncando outra vez, para a felicidade geral dos seus usuários. O sucesso foi tanto que trouxeram a balancinha da cozinha para que eu consertasse. A tirar pelo que se via no visor digital, o defeito estava bem acima das minhas habilidades. Muito provavelmente, o chip central tinha endoidado de vez e o conserto sairia mais caro do que uma balança nova.
Isso me fez lembrar da contrariedade que sentia em 1972 cada vez que tinha que jogar no lixo um isqueiro BIC novinho, produzido na França, criado para disputar mercado com os renomados Johnson e Zippo, de pavio embebido em fluido inflamável. O que me deixava atordoado era saber que sem gás, aqueles simpáticos e eficazes isqueiros tornavam-se objetos totalmente inúteis. Por mim, não havia lógica alguma em jogar fora todo aquele material industrializado, de valor bem superior ao do gás que vinha na cápsula. A era dos produtos descartáveis chegava para ficar.

Vitória, 13 de Maio de 2012.

Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA

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