Folião

Folião

Chegamos em Manguinhos por volta do meio dia, junto com  a chuva. Estacionamos em frente a um self service e aproveitamos para fazer uma boquinha enquanto Deus dava bom tempo. A primeira batucada que passou era de fazer chorar, mas foi só apressar o passo para alcançar o bloco que ia mais adiante. A bandinha era formada por músicos profissionais, colegas de batuque de outros carnavais. A chegada na pracinha, ainda meio vazia, foi triunfal.

Faz tempo que toco tamborim no carnaval em Manguinhos. Irmão, pai, sogro e tio de músicos, é no sábado de carnaval que posso tocar sem maiores exigências. Movido a cerveja e abastecido com o risole de camarão do Geraldo, ofereço os meus serviços aos blocos que passam. Quase sempre sou recebido com boa satisfação e até com algum entusiasmo. Acho que o som do tamborim assanha o pessoal.

Em casa, quando fazia uma baqueta de bambu, me dei conta de que não chego a ser um folião dos mais animados. Sinto que sempre vou meio a reboque. Mas experiente, posso garantir que sou.

O carnaval de menino de Cachoeiro era lá em Marataizes, no clube construído sobre uma pedra enorme à beira mar. Já mais taludo, frequentei as matinês de sábado no Praia Tenis Clube para ver as mamães animadas e as tias mais rebolativas. Nos bailes do Siribeira, em Guarapari, ficava de olho nas morenas cheias de charme que vinham do Rio em busca de diversão. Acabei casando com uma delas, de olhos fundos.

Foi lá também que me vi no centro de uma briga famosa que não era minha. A pancadaria aconteceu em duas etapas no lado de fora do clube, na manhã da quarta feira de cinzas. Até hoje tem gente que não acredita que eu tenha saído dela sem um arranhão sequer. Vestido de mulher, junto com uns poucos amigos, bati lata pelas ruas de Guarapari em pleno sol quente e, por duas vezes, saí no bloco das Desvirtuadas, com gente querendo organizar a brincadeira a todo custo.

No verão de 1972 chegamos na Praça Castro Alves pulando atrás do trio elétrico do Dodo, sem qualquer sufoco, cantando chuva,suor e cerveja. Tirei uma foto de Caetano sentado numa escada, ao lado de uma baiana fritando acarajé. Deixamos a barraca armada perto das dunas da praia de Piatã, sem a menor preocupação.

No final dos anos setenta, o carnaval de rua de João Pessoa era quase deprimente. O bloco Muriçocas do Miramar, só surgiu anos depois que nos mudamos de lá. Em compensação, naquela época as ladeiras de Olinda eram transitáveis e animadíssimas. Era o carnaval do pessoal mais alternativo, que dançava ao som de frevos e maracatus ao lado de Alceu Valença e Elba Ramalho.

Tenho coragem de dizer que tentei reger, sem qualquer sucesso, a banda do irreverente do Pacotão, bloco criado por jornalistas e funcionários públicos para debochar do regime militar. Cantávamos com toda convicção o Sanatório Geral, do Chico, em plena Avenida W3 deserta, bem no coração de Brasília. Desfilei uma única vez em escola de samba. Foi por volta de 1990, lá na Barra de Itapemirim, na rua onde passavam os trilhos da estrada de ferro que existiu por ali. Não deu muito certo, não.

Quando estudava no Rio de Janeiro, frequentei a Banda de Ipanema ao lado de moradores do bairro sambando sob a animação radiante de Leila Diniz. Era uma verdadeira festa da pegação à luz do dia. Recentemente, levei um baita susto quando, nem bem cheguei na concentração e um fortão desses mais assanhados agarrou na minha barba e me chamou de “meu Dom Pedro”. E eu nem estava fantasiado nem tocando tamborim.

Vitória, 20 de Fevereiro de 2012
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA

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