Festa das pedras
Esta semana tem feira de mármore e granito em Vitória. Um evento espetacular que só perde em tamanho para as feiras de Verona e Carrara, na Itália. Mais de quatrocentas empresas estarão expondo uns seiscentos tipos diferentes de mármores, granitos, ardósias e muito mais. Uma explosão de cores e formas para serem vistas sem pressa e com olhar atento. Lá estará também o que de melhor existe em termos de máquinas, equipamentos, ferramentas e serviços. São esperados mais de vinte mil visitantes, vindos do mundo inteiro.
Modéstia à parte, é bom que se saiba que esse negócio de feira de mármore começou lá em Cachoeiro de Itapemirim. Foi com orgulho de cachoeirense que mamãe me contou ao telefone que tinha ido visitar a terrinha com o irmão e que eles ficaram impressionados com as indústrias que serravam blocos enormes de mármore, fazendo um barulho danado. Era 1987 e eu tinha acabado de voltar para Vitória para dar aulas na UFES e trabalhar no BANDES com Odilon Borges, que insistia em me apresentar como seu assessor de rabo preso.
Atento à novidade, logo descobri que mais de trezentas empresas atuavam no setor, mobilizando umas dez mil pessoas. Feitas as contas, vi que quase cinquenta mil capixabas já viviam da pedra, embora pouca gente se desse conta disso. Os olhos das pessoas e as atenções do governo estavam voltadas para as grandes empresas que se instalavam por aqui. A indústria da pedra funcionava heroicamente nas cidades do interior, no meio do mato, utilizando-se de máquinas e processos rudimentares, passíveis de aprimoramentos de toda ordem. Os padrões de acabamento estavam longe dos que eram vistos lá fora. Davam vergonha, até.
Pretendendo melhorar a qualidade dos produtos e aumentar a lucratividade dos negócios, tratou-se de estimular as empresas a usar a balança, a régua e o relógio para medir e controlar o que faziam. Entendeu-se, também, que as vendas, feitas de forma bem amadora, deveriam passar a contar com o apoio da propaganda e do marketing. Era preciso marcar dia e local para mostrar a beleza das nossas pedras para muita gente, inclusive aos arquitetos e decoradores, que não distinguiam mármore de granito.
A ideia de se criar uma feira em Cachoeiro foi ventilada em reunião animada com os empresários locais. Ela deveria acontecer logo, antes da que estavam pretendendo fazer lá em São Paulo. Tomada a decisão, era preciso contar com alguém com experiência no assunto e muita disposição. Odilon chamou Cecília Milanez, pessoa despachada e generosa, para enfrentar a empreitada. Posso garantir que foi uma doideira fazer tudo em menos de um mês. Improviso era a palavra de ordem e correria o ritmo permanente.
O parque de exposições era a única opção disponível para abrigar os trinta e poucos audazes expositores. Os stands foram montados dentro dos galpões, nas baias de grandes animais. As empresas maiores ficaram ao ar livre.
O transformador não resistiu à demanda e explodiu minutos antes do discurso que o governador faria para empresários, homens de governo e famílias inteiras vestidas com a melhor elegância. No meio da noite, Curuca, o dono do restaurante mais famoso de Meaipe, avisou que iria fechar porque estava faltando água. Alguém deu solução e a festa continuou.
Dava gosto ver a alegria das pessoas se abraçando como se estivessem comemorando algo muito relevante. Na verdade, era uma celebração entre amigos, concorrentes, clientes e fornecedores. Durou até a madrugada. Exaustos, fomos dormir em Vargem Alta, por falta de hotel na cidade.
Vitória, 06 de Fevereiro de 2012.
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA
