Conforme previsto

Conforme previsto

Há algum tempo, escrevi aqui sobre a escolha da minha mãe como Cachoeirense Ausente No 1 de 2011 e falei da maratona que é o ciclo de homenagens e os eventos que acontecem em Cachoeiro nesta época, com total regularidade, há mais de sete décadas.

Neste ano comemora-se o centenário do nascimento de Newton Braga, poeta maior do sul do Estado e idealizador da festa da cidade. Isto fez a animação aumentar ainda mais.

Em plena quarta-feira lá fomos nós, em comitiva familiar, levar Dona Gracinha para abrir os festejos e receber as primeiras homenagens de seus conterrâneos.

Sentada ao lado da janela, ela se manteve em silêncio, observando a paisagem da estrada, durante quase todo o trajeto. Atenta, parecia conferir o que havia de novo ao longo do caminho, por onde já passara centenas de vezes. Acho que, enquanto chupava uma balinha de coco queimado Itabira, mamãe ia se lembrando da sua infância em Cachoeiro, da sua vida de menina estudante, da animação de mocinha se arrumando para passear na praça e ir dançar no Caçadores.

É quase certo que o coração dela deve ter acelerado ao máximo ao ouvir a bandinha tocando Meu Pequeno Cachoeiro quando a van estacionou diante das mais de cem pessoas que a esperavam no trevo do Horto União, em plena estrada da Safra.

Quando a porta de correr se abriu ela pode ter a exata dimensão da força das palmas, da altura dos gritos, do barulho dos foguetes, da montoeira de máquinas fotográficas em busca de uma imagem daquela senhora, meio atônita e inteiramente feliz com todo aquele alvoroço.

De braços abertos, mais do que sorridentes, ali estavam amigos de infância, parentes distantes, amigos dos filhos, gente entusiasmada de todo tipo e idade. Uma verdadeira festa da confraternização, uma recepção de fazer chorar marmanjo velho, senhoras elegantes e a caçula da família.

Pois lá estava Dona Gracinha atirando beijos para o público, recebendo abraços apertados, dando entrevista, declarando amor eterno pela sua terra, fazendo pose de artista famosa, plena de orgulho e de razões.

O quadro que ela havia pintado da casa onde nasceu fora transformado em um enorme banner, completado com uma fotografia dela aos trinta e poucos anos, elegante que só, metida em uma roupa escura e com sorriso amistoso e olhar meio maroto. Pano de fundo perfeito para fotos históricas.

A bordo de um sedã Mercedes Benz verde ela seguiu com o Prefeito e sua esposa para a Rua 25 de Março, à frente de uma carreata escoltada por carros de polícia com giroflex ligado, anunciando a chegada da Cachoeirense Ausente.

A solenidade no Centro Operário, situado bem de fronte da casa onde ela nasceu, foi emoção do começo ao fim, na forma de discurso, declarações de amor, música e poesia feita por amigo. Da janela que dá para a calçada, mamãe bateu palmas para a Lira de Ouro, de tantos carnavais de outrora.

À noite, na sessão solene da Câmara de Vereadores, vestida de vermelho vibrante, ela recebeu o título das mãos do seu Presidente. Com voz firme e boa entonação, discursou em agradecimento. Ganhou aplausos de mais de quatrocentas pessoas, inclusive de Elke Maravilha, outra homenageada.

Na volta pra casa, com a melhor cara deste mundo, declarou que iria descansar bastante para estar em plena forma para dançar no baile de gala no sábado. Mas isso é uma outra história.

Vitória, 28 de Junho de 2011
Alvaro Abreu

Escrita para A Gazeta

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