Neeennsseeeeee

Neeennsseeeeee!

Muricy não aparece na foto do encarte distribuído por A GAZETA nesta segunda feira, em homenagem aos torcedores do Fluminense, que se sagrou campeão brasileiro de 2010, exatos 26 anos depois da última conquista de campeonato disputado pelos melhores clubes de futebol do país.

Tradicionalmente esse tipo de registro é feito antes do jogo. Nele sempre aparecem os jogadores titulares e os reservas, treinador, massagista, preparador físico, médico, diretor de futebol, psicólogo, roupeiro, amigos do diretor, filhos de dirigentes e agregados afins. Nesta foto histórica para os tricolores capixabas contei 19 atletas uniformizados e prontos para o combate, 17 profissionais vestindo agasalho verde e branco, 24 crianças vestidas de futuros campeões e uma moça com jeito de professora de escolinha de futebol.

Muitos dos jogadores aparecem sorridentes, alguns demonstram tensão, dois fazem pose de beque central violento e um está com cara de ponta esquerda irrequieto. Os homens de retaguarda, gordinhos e carecas, demonstram ansiedade. Só dois deles estão confiantes. As crianças aparecem com as melhores caras deste mundo, felizes de estarem ali, ao lado dos ídolos, no colo do pai goleador.

Por certo todas elas guardarão fotos distribuídas por jornais e revistas para serem usadas como prova inconteste de que estiveram naquele estádio lotado, naquele dia de gloria do clube do coração. Jamais se esquecerão de terem participado daquele momento especial na trajetória do time tricolor carioca. É coisa para o resto da vida.

Digo isso porque guardo uma fotografia 18×24 em preto e branco que registra um acontecimento no centro do gramado do estádio do valente Cachoeiro Futebol Clube, lá da minha terra. Nela aparecem homens do esporte, autoridades municipais e alguns atletas ouvindo, atentos e circunspectos, o que meu pai dizia ao microfone da rádio da cidade, que o locutor desportivo segurava à sua frente.

É bem provável que tenha sido uma pequena solenidade de despedida do diretor do clube, que estava de partida com a família inteira para a Bolívia, onde iria trabalhar como consultor em saúde pública por dois anos.

Nela estão também os três filhos do Dr. Bolívar, metidos em calça curta e suspensórios,como parte de uma cena que inclui ao fundo uma arquibancada alta de madeira com guarda corpo e telhado. Nem sei se ainda existem vestígios daquele velho estádio lá no bairro Baiminas que guardo no papel.

Não me lembro do dia em que comecei a torcer pelo Fluminense no meio de uma família de flamenguistas e ao lado de um irmão mais velho vascaíno doente. Pode ter sido depois de alguma defesa espetacular de Castilho ou Veludo, narrada com entusiasmo pelo locutor da rádio Nacional.

O fato é que permaneço fiel ao gigante das Laranjeiras até hoje, com o mesmo entusiasmo da amiga que me telefona sempre, na derrota ou na vitória, a mesma convicção do vizinho que estendeu uma bandeira tricolor na varanda da casa e de um velho amigo que vive com a família em Viena, onde terá aberto as janelas para gritar “neeennnsseeeee!, “neeennnsseeeee!” depois do gol por entre quatro pernas adversárias e, sobretudo, do esperadíssimo final da partida.

Torço para ver Muricy na fotografia da conquista da Libertadores.

Vitória, 08 de dezembro de 2010

Álvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

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