O pó nosso de cada dia
No começo da semana, li, neste jornal, uma matéria bem completa sobre a situação dos sistemas de controle da poluição atmosférica da Grande Vitória. Gráficos apresentados demonstram que a “Eficiência de todas as estações caiu a zero em cinco anos”. Parece exagero, mas é o que a repórter constatou. Se vivo, o Padre Conselheiro dos meus tempos de aluno do Salesiano diria em alto e bom som: “Vergonheira, sô!”
O bem-aventurado vento nordeste, sobretudo em tempos de ondas de calor insuportáveis, tem soprado na mesma intensidade das rajadas que a gente enfrentava, fazendo força e achando bom, nas regatas de snipes na Taça da Cidade de Vitória, nos setembros da vida de rapaz. Só que, desde os anos 1980, continua trazendo a sujeira da Ponta do Tubarão pra cá.
Pois na noite de segunda feira, recebemos a visita de amigos queridos. Achamos por bem aproveitar a fresca da varanda, lugar próprio para colocar em dia as conversas e as emoções de provar o queijo e a cachaça que trouxeram de Teófilo Otoni.
Depois de passar vergonha, pedi licença pra limpar cadeiras e o tampo da mesa esfregando tudo em três rodadas de pano úmido. Na primeira, o preto do pó se apresentou pleno, convicto, senhor poderoso da situação. A sujeira descarada era tanta e tão consistente, que dava a impressão de ser algo normal e aceito. No passado, dava orgulho a alguns desavisados.
Como viajamos na semana passada, o carro passou bem uns 5 dias ao relento, em frente de casa. Sua lataria escura estava coberta por uma camada espessa e meio peguenta de sujeira formada pelo pó que, depois de sair das pilhas de minério e das chaminés, ganha a maresia das águas e vem se instalar nas superfícies, nas gretas e nos pulmões.
Vida que segue, na segunda-feira fui com Carol buscar Yara, neta caçula, na creche. Pois a danadinha, muito atenta, nem bem entrou no banco de trás e foi logo dizendo que queria ir lavar o carro no posto, um programa infantil sensacional, que experimentou há pouco tempo.
Ela tinha adorado ficar dentro do carro vendo o homem jogar um jato de água fortíssimo na lataria e nos vidros, fazendo barulho. Espantada no começo, logo, logo se entusiasmou ao ver o jato de espuma de sabão ir cobrindo rapidamente o que estivesse fora do carro, inclusive o rapaz que apontava o bico da mangueira pra ela.
Antes mesmo da espuma escorrer totalmente pelos vidros, foi a vez de ver um pedaço grande de esponja sendo esfregado em círculos e riscos, deixando limpo por onde passava. Ela acompanhou com atenção o rapaz esfregar, com movimentos rápidos e certeiros, todas as janelas, o capô e partes da lataria. Terminado esse serviço, ela levou um baita susto quando surgiu novamente aquele jato d’água fortíssimo, que deixava tudo livre de sujeira e da espuma de sabão.
Quando o cenário externo voltou ao normal, a danada da menina fez biquinho de não gostou e carinha de quero mais. Avô esperto, tratei de dizer pra ela que lá em casa tinha mexerica azedinha esperando por nós.
Vitória, 16 de novembro de 2023
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA
