Cachorrada
Depois do jantar em família, fui tomar uma fresca na varanda e ver o movimento dos carros e dos aviões. Nesse horário, o trânsito é lento e a rua fica inteiramente tomada por automóveis, camionetes e ônibus. Dalí, daquele segundo andar, também dá pra apreciar o movimento de pessoas na calçada. Vi um senhor magrinho de tênis, uma loura de demonstração, dois recém-casados, um rapaz bem gordo e um careca com cara de quem gosta de cerveja. Cada um com um cachorro preso a uma guia. O saquinho, na outra mão, atestava que eram cidadãos politicamente corretos. Cenas típicas de cidade grande, de lugar onde crianças já não brincam nas ruas.
Sou do tempo em que os cachorros viviam soltos, comiam comida de panela e só tomavam vacina anti-rábica. Nada de pet-shop nem de dentista.
Braine, um pastor alemão brincalhão e inteligente, era o mascote da turma de adolescentes que freqüentava a antiga Rua da Árvore e praia do Barracão. Ao perceber a movimentação dos filhos de Seu Zé Ramos, ele abocanhava o pau da barraca de sol, entortava o pescoço pra passar na porta do quartinho e ia esperar no portão da frente. Era um banhista animado e convicto. Dava cambalhota pra trás e nadava para buscar a bolinha de frescobol arremessada longe. Nessa época, cachorro podia ir à praia. Hoje, nas areias lotadas, existem tabuletas proibindo animais e prometendo multa aos donos. Embora livre do bicho geográfico, o mundo ficou mais sem graça.
Zorro, um vira-lata de boa estatura, branco com manchas marrons, era tido por meu irmão Afonso como pai de todos os cachorros malhados da cidade. Ele afirma, orgulhoso, que encontrou o danado perseguindo cadela no cio lá pelas bandas da rodoviária. É bom que se diga que Zorro ajudou a criar os três filhos do casal. Acompanhava os meninos onde quer que fossem e só voltava pra casa junto com eles. Depois de velho, esparramado na varandinha da casa de esquina, abria um olho só para conferir quem chegasse. Afonso tratou de arranjar um poodle para acordá-lo em caso de perigo iminente.
Não conheci o cachorro de mamãe lá em Cachoeiro. Ganhei intimidade com Zig Braga através das suas histórias. Dizem que Zig tinha raiva de homem fardado e do carteiro, que reclamava com vovó Neném se o angu estivesse mal cozido e que ao vê-la em sapatos de salto descia correndo as escadas para esperá-la no caramanchão. Há quem se lembre daquele cachorro enorme andando ao lado dela em suas idas ao comércio, à igreja ou em visita a parentes. Onde não podia entrar, esperava deitado na calçada. Mamãe conta que Zig provocava grande alvoroço na saída do Liceu, do outro lado do rio Itapemirim, onde ia buscá-la diariamente.
Bingo é um cachorro tímido, meio triste, mas muito gentil. Embora já quase todo branco de velhice, meio surdo e enxergando pouco, faz por merecer o apelido de “vovô garoto”, tamanha a vitalidade que exibe ao sair pra rua. No quintal, está sempre com cara de coitado. Quando precisei, foi uma companhia solidária e silenciosa. Kill e Bill completam o trio de bassets da casa. Kill é preto, parrudo e super-simpático. O outro, bem menor e marrom, é medroso que só e veio trazendo traumas de infância. Estão sempre juntos, dormem enroscados e adoram meus netos. Manu, nos seus dois anos e meio de idade, faz cara de domadora ao dar, com parcimônia, bolinhas de ração na boca de cada um.
Vitória, 04 de Agosto de 2010
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA
