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Fui ao cinema ver o documentário sobre o festival da TV Record, em 1967. Levei mãe, mulher e filha com namorado. Três gerações diante de um mesmo acontecimento, três olhares diferentes sobre o que aconteceu em São Paulo, na efervescência de um tempo de muitos embates e divergências. O país estava dividido na política, começando a adotar roupas coloridas, experimentando novos tipos de droga, incorporando valores e ouvindo sons estranhos.
Para quem viveu aqueles anos conturbados o filme traz de volta as mesmas emoções sentidas. Quem desconhece ou só ouviu falar por alto pode entender um pedaço do Brasil que surgiu naquela época pela voz e atitudes das pessoas que aparecem na tela, em preto e branco. Caetano, Chico, Gilberto Gil, Roberto Carlos e Edu Lobo cantando enquanto Sérgio Ricardo jogava o violão na platéia por não conseguir cantar.
Um mundo artístico livre da força do marketing profissional, apresentadores televisão modestos e espontâneos, fumantes inveterados dando entrevistas ingênuas e declarações reticentes. Auditório repleto de moças paulistas de brincos e colares reluzentes. A rivalidade amistosa entre artistas recém chegados às paradas de sucesso, uns mais inovadores e arrojados do que outros, todos talentosos. Vi imagens da passeata contra guitarras na música brasileira, de que já nem me lembrava mais.
Sempre achei que a música, mais do que as fotos, nos ajuda a reviver em detalhes experiências pessoais.
Mais Que Nada, tocada por Sérgio Mendes, me leva de volta ao desfile da Rhodia no Saldanha da Gama, onde seis ou sete manequins aceleraram os corações de meio mundo. A cadência de Desafinado até hoje me deixa sentado na varanda de piso de marmorite da casa de amigo como no início dos anos 60. O Calhambeque me faz subir as escadas do Clube Vitória para ouvir o Rei mandar Tudo pro Inferno.
Ouvir Banho de Lua de Celly Campello me proporciona a satisfação de ter driblado o controle do porteiro do Álvares Cabral na Praça Costa Pereira. A Benção de Vinícius me leva às domingueiras do IBEU de Luiz Paixão e Satisfaction dos Rolling Stones sempre me faz dançar de olhos fechados na pista da Boate Boteco. Os acordes iniciais de Chove Chuva, das poucas coisas que sei tocar no violão, me colocam diante das eletrolas de Jairo Maia no Praia Tênis Club, enquanto a suavidade de Georgia on My Mind na voz de Ray Charles me faz lembrar as tentativas de conquistar moças mais renitentes.
Bandeira Branca arrasta meus pés e levanta meus braços lá no Siribeira em Guarapari e Preta Pretinha me convida para ir novamente ao meu casamento lá em Itaipava, no Estado do Rio. Lança Perfume de Rita Lee reaviva em mim os tempos em Brasília e a letra de Vai Passar, do Chico, me coloca feliz nas comemorações pelo fim da era dos presidentes militares.
Visitei a exposição dos 50 anos de carreira de Roberto Carlos. Na saída, à espera do taxi, tive a sensação de ter acabado de assistir o trailer de um musical sobre os tempos que tenho vivido. Vi a mesma expressão de saudade boa estampada no rosto emocionado dos muitos que estavam ali, ao meu lado, olhando aquela chuva grossa cair.
Vitória, 15 de Setembro de 2010
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA
