Na varanda da casa em João Pessoa

Na nossa casa em João Pessoa

Deitado na rede, na varanda interna da casa, podia-se ver o progresso diário daquela construção de barro que o maribondo fazia.

Aquele parecia ser o melhor lugar da casa para a gente ficar. Os 3 pares de ganchos possibilitavam ajustar a posição da rede em função das condições do vento e da posição do sol. Além disso, podia-se deitar virado para a parede da casa ou para a plantação de macaxeira e feijão de corda.

Quero dizer com isso que aquilo ali era quase perfeito para um profissional de rede, como eu acabara me transformando com o passar do tempo. Os bancos construídos com pranchões de madeira entre pilares garantiam lugar digno e razoavelmente confortável para que os amigos que nos visitasse pudessem se sentar por perto, em volta.

Dependendo da intimidade, o visitante poderia esticar-se em uma outra rede e, nessas ocasiões a conversa correria bem mais lentamente. Conversas animadas, ativas, consequentes, nervosas são as que correm em volta de uma mesa, com luz forte de cima, garantindo claridade e conforto visual. Nesses ambientes, não há como escapar de raciocínios rápidos, de piadas picantes contadas com graça, de teorias construídas ao som das palavras sucessivas, dos olhares críticos e das discordâncias veementes.

Na rede, em compensação, as conversas sempre rangem como os ganchos nos prendedores, balançando calmamente de um lado para outro, como os pêndulos da física. Os olhares – quando possíveis – são sonolentos, quase sempre; sedutores, raramente.

Daquele telhado, praticamente, conhecia tudo: as terças entre pilares, os caibros da parede às terças, as ripas e as benditas telhas cor de barro. Adoráveis e irregulares telhas de barros. Da marca impressa em baixo relevo não sei se lembro: talvez Santa Rita, talvez Itamaraju.

Que diferença faria, saber a marca daquele céu? Mais do que o nome da olaria, o que importava eram as cores e as formas arredondadas daquelas peças.

As casas de marimbondo se multiplicaram com boa velocidade. Dava pra ver que, como eu, eles preferiam os cantos mais protegidos do vento. Algumas das casinhas davam evidentes sinais de abandono, de já terem comprido sua função de ninho, ou seria de incubadora?

As telhas podem ser consideradas depositárias de aflições, angústias, solidão e tudo o mais que um homem sente quando está com medo, raiva, cansado, perturbado, agoniado e tudo o mais que se pode sentir em situações de dilema, dúvida, ânsia e incerteza. Muitas vezes descarreguei nelas o que sentia e não conseguia dividir com ninguém. Depois acabava dormindo tranquilo.

Você, por acaso, tem uma rede para deitar e ficar olhando as telhas? Tem rede mas falta o telhado. Ah, o teto é de concreto? Pior pra você: o liso do reboco e o branco da tinta, não permitem reter os pensamentos. Parece que as ideias e os sonhos escorregam, refletem, quicam quando em contato com eles.

Com as telhas é bem diferente. Parece que as curvas, os pequenos buracos, as reentrâncias, os côncavos e os convexos absorvem e retém quase tudo que chega até elas.

Passei muitas e muitas horas de barriga pra cima, olhando as telhas, pensando na vida, nos meninos, na mulher, no trabalho. Pra falar a verdade, mais no trabalho do que na família. Coisas de rapaz no exercício de função pública de alta responsabilidade.

Alvaro Abreu

Escrita idos de 1997

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