Gripe danada
Acabo de sair de uma experiência relatável, mas não transmissível via jornal: uma gripe fortíssima que durou cinco dias completos. O que começou com um pequeno ardido na garganta, evoluiu para uma coriza progressiva e renitente, seguida de sessões de tosse seca. A certeza da doença, se é que gripe é doença, se instalou de vez quando percebi uma redução acentuada da capacidade auditiva e uma rara perda de apetite. Daí em diante, a coisa tomou rumo previsível e em ritmo crescente até me jogar na cama por dois dias completos. Percebi que, aos poucos, o mundo foi perdendo o interesse e a graça. O estado gripal faz aumentar a irritabilidade do acometido e tem o poder de provocar letargia e alienação. No auge do processo, o umbigo assume o controle geral da situação e faz valer o seu poder.
Desta vez, a tal gripe reduziu a quase zero minha sensibilidade aos noticiários sobre a vertente imobiliária do poder das milícias, as malandragens da concessionária que cobra pedágio e não duplica, a gulodice de ICMS, praticada por anos seguidos pela siderúrgica, as operações da Federal nas casas e escritórios de gente esperta e poderosa, a soltura instantânea de mais um preso precioso, sem falar na tentativa descarada, conduzida por dois indignos ministros do Supremo, de instalar a censura à imprensa no país.
Por mais relevantes, as notícias do mundo não comovem nem geram indignação em quem for apanhado por uma simples gripe viral, dessas que ficam à espreita de gente que sofre um choque de temperatura ao sair do carro ou ao entrar em lugar com ar condicionado no máximo. Por essas e outras, tomo a liberdade de sugerir um gripezinha maneira, com direito a dias de cama, chá de limão, alho gengibre, mel e uma pitada de cachaça, aos meus amigos do peito e a quantos também estejam indignados e se sentindo impotentes e desanimados com a escalada das barbáries nacionais. O corpo ficará doído de tanto ficar deitado porém, passados os dias de sofrências, a alma estará bem mais leve e descansada, prontinha pra aguentar o tranco e dar o troco.
Vitória, 17 de abril de 2019
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA
