Casa cheia
A danada da gripe que se apoderou de mim durou muito mais do que o usual. Ela abrandou mas voltou a reinar por mais uma semana. Sem aviso prévio, me obrigou a passar mais três dias na cama, a zanzar silencioso de um lado pro outro e a tomar vários banhos por dia, depois de suar frio, em busca de bem-estar. O fato é que, mesmo sem tosse, nariz escorrendo ou febre, ainda hoje não estou seguro de que ela já tenha acabado realmente.
Para complicar um pouco mais a vida do gripado, uma pequena obra estava sendo feita dentro de casa, a toque de caixa. Transformar uma espécie de escritório em uma suíte exigiu abrir vão de porta, colocar marco e soleira, regularizar o piso, rasgar paredes para trazer água quente e fria pro chuveiro, instalar o blindex do box e pintar tudo direitinho. Para completar o serviço, foi preciso desmontar estantes, prateleiras, a grande mesa de trabalho, e retirar todos os quadros e fotografias das paredes para repintar o quarto. Por mais ingênua que possa parecer, uma obra é sempre incômoda. Além do barulho e da poeira, todo pedreiro pede, diariamente e com urgência, que se compre alguma coisa fundamental.
Como se não bastasse, a obra tinha data pra terminar: na noite da véspera do dia em que chegariam os primeiros ocupantes da benfeitoria, um casal de ingleses com duas filhinhas. Viriam junto com nossa Manaíra, o maridão e os dois filhos. E eu, depauperado, sem graça e sensível a choro de criança. De surpresa, um grande amigo, que há dez anos não via, resolveu aceitar nossos insistentes convites e vir passear em Vitória, exatamente naquele fim de semana de casa cheia. A gripe deu trégua suficiente pra um almoço festivo e um passeio turístico, incluindo visita a museu, compras no mercado da Vila Rubim e subida no morro da televisão. Agora, nestes feriados gordos, uma cunhada e um casal de amigos fraternos de Brasília enchem a casa de conversas amenas e risadas gostosas. Lá fora ecoam notícias sobre a morte da cantora querida e impróprias palavras ministeriais. Na próxima semana chegarão amigos de Petrópolis.
Vitória, 20 de abril de 2019.
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA
