Carros e vitrines

Carros e vitrines

Faz tempo que meu pessoal me fala pra trocar o carro. Não que ele esteja velho e com defeitos, tem só uns pequenos arranhões. Foi comprado novinho em folha para as férias de 2011 e, como ando pouco, ele é um legítimo seminovo, no linguajar do mercado. Até então eu sempre comprei carro de segunda mão, pouco rodado, por achar a relação custo benefício favorável. O valor do zero km costuma cair bons pontos percentuais tão logo se ultrapasse, orgulhoso, o portão da concessionária.

Hoje já não tenho disposição para sair por aí lendo anúncios no jornal, telefonando para ofertantes, ouvindo elogios enganosos, indo conferir in loco o estado geral do carro e o levando à oficina de confiança para avaliação mais completa. Antigamente, a procura era facilitada pelo reduzido número de modelos e de marcas existentes e, sobretudo, de carros à venda. Não havia essa fartura de hoje em dia. Agora, para complicar, como se não bastasse a diversificada oferta de bons carros nacionais, há também enorme variedade de importados interessantes.

Qualquer cidadão que, como eu, pouco consegue acompanhar as inovações automotivas, se vê cheio de incertezas diante do crescente cipoal de opções e novidades. Abre-se aqui espaço para o marketing digital especializado, que pretende capturar cada comprador potencial com a oferta de produtos que atendam às suas expectativas de consumo, quase sempre criadas por campanhas anteriores.

Nessa rota, quando qualquer um de nós, por distração ou ingenuidade, clica sobre uma fotografia de um carro simpático na tela, faz brotar anúncios que primam pela sofisticação das imagens e que logo chateiam pela insistência. Foi depois de muito sofrer esse tipo de assédio digital que me ensinaram a navegar por sites de marcas e lojas especializadas, usando uma tal janela anônima. Ela até garante a defesa pessoal, mas nem sempre ajuda a tomar uma decisão.

Tudo isso me fez lembrar do poeta Mário Quintana, que dizia adorar andar pelo comércio de Porto Alegre para ficar olhando as vitrines repletas de coisas que ele não precisava comprar.

Vitória, 16 de outubro de 2019

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

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