Torcedor Tricolor

Torcedor Tricolor

O futebol anda pegando fogo nesses tempos de decisão. Os estádios estão repletos de torcidas animadas, que cantam e fazem coreografias sincronizadas para empurrar o time. A televisão mostra o espetáculo no gramado e nas arquibancadas coloridas e barulhentas. Não percebo fanatismo, mas constato entusiasmo e alegria. Os jornais andam cheios de notícias estimulantes. O faturamento aumenta e o dinheiro circula. Imagino que os jogadores se sintam valorizados por suas proezas, cobrados por suas falhas, pressionados a produzir bons resultados.

Sou tricolor, de coração. Desde muito pequeno torço pelo Fluminense. Na minha terra, torcia pelo Cachoeiro, time a que meu pai dedicava grandes atenções e pelo qual se indispunha com torcedores do Estrela. Aqui, escolhi o Vitória para sofrer, em época que o Rio Branco e a Desportiva não o deixavam ser campeão. Mas devo dizer que faz tempo que o futebol deixou de me emocionar e fez de mim um torcedor de Copa do Mundo. Nem gosto de lembrar Roberto Carlos arrumando o meião em momento crucial daquela decisão com a França.

Não sei se isso seria suficiente para que algum especialista – hoje em dia tem especialista em tudo – pudesse traçar meu perfil desporto-emocional. Mas se tentasse fazê-lo, seria prudente que considerasse que esta semana estive diante da televisão por três vezes, vendo jogo de futebol. A primeira, numa saleta de hospital, por falta de opção. A segunda, já tarde da noite, assistindo uma vitória suada do Fluminense a caminho de um título sul americano importantíssimo. Foi emocionante ver o empenho dos jogadores do meu time buscando o gol do empate, que só veio aos 47 minutos do segundo tempo, bem ao estilo flamenguista. Fizeram mais um gol, para não deixar qualquer dúvida.

Domingo foi a vez de ver o Sport de Recife dar a sua contribuição à histórica campanha do Fluminense em 2009. Um espetacular três a zero vai nos ajudar a ficar na primeira divisão. Pode parece pouco, mas não é. Fiquei sabendo pelo comentarista da TV que, na opinião de um experiente matemático, as probabilidades de rebaixamento rondavam a casa dos 99%. Exultante, ele lembrava que meu time não perdeu nenhuma das últimas 13 partidas. Um resultado estupendo, como se dizia, de alto desempenho, como se diz agora. Por mais decepcionado que esteja com o futebol, não há cidadão que resista a tamanha demonstração de amor à camisa tricolor.

Para ajudar a esclarecer o que ando sentindo, devo dizer que fui goleiro de futebol de salão, uma das mais ingratas funções que um homem pode exercer no mundo do esporte. A bola é pesada, os chutes são fortíssimos e de curta distância. O dedo médio da minha mão esquerda, quebrado na falange superior, num treino num primeiro dia de férias, é um testemunho que carrego até hoje.

Pois bem, essa reviravolta do Fluminense me fiz lembrar de uma partida disputada na quadra do Praia Tênis Club. Depois de sofrer 5 gols por falhas gritantes da nossa defesa, resolvi pedir para sair de campo logo no começo do segundo tempo. Saí xingando, direto pro chuveiro. Só fui entender a gritaria que chegava pela janela do banheiro quando soube que o nosso time tinha virado o placar para 6 a 5. Quem quiser que explique.

Alvaro Abreu

Vitória, 25.11.2009

A Gazeta

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