Pernas de pau
Nem bem acabou de me dar um abraço apertado e um beijo de bom dia, Manu, a neta mais velha e xodó de muita gente, me pediu para fazer uma perna de pau pra ela. Seria meu presente de seu décimo aniversário, lá em novembro. Ela não me deu qualquer pista sobre suas motivações em querer brinquedo tão antigo e fora de moda. Da minha parte, devo dizer que fiquei muito lisonjeado com aquela demanda. Na sua carinha, uma expressão de plena confiança de que o avô atenderia prontamente o seu pedido.
Experiente no trato com madeira, achei que poderia dar conta do recado sem ao menos precisar sair de casa para comprar material. Lembrei-me das ripas de pinho clarinho de boas dimensões, compradas faz tempo, guardadas lá no puxadinho. Além disso, seria uma boa oportunidade para usar os pregos que trouxe dos EUA e experimentar a cola de madeira que se anuncia forte como um gorila. Serrote, martelo, esquadro, riscador, grosa e lixas são coisas que não faltam no meu armário de ferramentas e bagulhos em geral.
Enquanto apanhava o que iria usar e tirava o pó preto da minha bancada fui idealizando o projeto. Consultei a neta para melhor definir o tamanho das pernas e a altura da plataforma para colocar os pés, sustentada por pequenos triângulos de madeira. Depois foi só marcar e serrar as ripas com precisão, tirar todas as quinas vivas com a grosa e lixar tudo sem pressa. Por saber que é observando e ajudando que se aprende a fazer muita coisa, pedi a Theo, o irmão dela, que firmasse as ripas enquanto eu passava cola nas peças, batia os pregos e afinava os cabos para facilitar a pega por mãos pequenas. Precavido, para evitar escorregões, tratei de colocar sola de borracha nas extremidades de baixo.
Os primeiros passos de Manu com as pernas de pau foram inseguros e desajeitados, mas o aprendizado foi rapidíssimo: em pouco tempo a menina já estava andando de um lado para o outro, subindo e descendo degraus sem titubear. Vi que ela adorou poder ficar conversando com a avó sem precisar olhar pra cima. E se achando, naturalmente.
Vitória, 23 de agosto de 2017
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA
