Self-Service

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SELF-SERVICE

Na semana passada, conheci mais um restaurante self-service. Na porta, uma moça elegante entregava o cartão de controle e, na balança, a dona da casa era toda sorrisos. Ambiente de fina decoração e cadeiras de boa forma garantiam conforto e bem estar. No balcão, estavam disponíveis 6 ou 7 tipos de salada, 3 opções de carnes, outras tantas de peixe e de frango, uma espécie de rocambole de frutos do mar, carpaccio derramado sobre tiras de alface, um risoles sofisticado e um penne muito atraente. A chef de cozinha circulava entre as mesas conferindo o próprio sucesso. Paguei 18 reais.

Contei mais de 20 restaurantes a quilo num raio de 300 metros de onde saio para almoçar nos dias úteis. Uma explosão de opções para uma clientela de cresce e engorda a olhos vistos. Invenção brasileira que vai se espalhar pelo mundo afora no rastro da sandália de dedo e da cachaça.

Sinal dos tempos, descoberta da pólvora, o self-service é a versão pret-a-porter da alta gastronomia. É o resultado da aplicação dos conceitos da engenharia de produção nas compras, na operação da cozinha, na organização do balcão, no layout do salão e no esquema de cobrança. Tudo isso para racionalizar processos, minimizar perdas e estoques, aprimorar controles e cortar os custos, visando oferecer alimentação de qualidade a preços justos para grandes contingentes de profissionais apressados, aposentados tranqüilos e estudantes famintos.

Lembro-me de ter ficado perplexo ao ouvir uma amiga dos meus filhos dizer para a família reunida à volta da mesa, que na casa dela não mais aconteciam momentos como aquele, pois o almoço havia sido definitivamente abolido. Práticos e eficientes, os restaurantes a quilo apenas começavam a atender os consumidores “sem cozinheira”, facilitando mudanças na vida da classe média das metrópoles.

O self-service decretou o fim do domínio do cozinheiro e da lerdeza do garçom, encerrando os tempos das incertezas em relação ao que viria lá da cozinha. Agora, a fartura e a diversificação da oferta abrem espaço para a criatividade e a gulodice na montagem da nossa refeição de cada dia. Noto que a educação do usuário está expressa na sua forma de comer e a personalidade, na composição do seu prato. O ideal é que não existissem televisões ligadas e fosse evitado o uso dos celulares durante o horário de atendimento.

Digo tudo isso porque fui criado almoçando e jantando diariamente, sem muito barulho. O cardápio era o trivial variado: arroz, feijão, salada de alface e tomate, uma verdura e carne assada, ensopada, moída, ou na forma dos disputadíssimos bifes. Macarronada só aos domingos. Nas Quintas Dançantes do Iate Clube a única opção era um inesquecível PF de arroz, farofa crocante e meio galeto assado, regado com o molho de Pedrinho. Naquela época, strogonoff era o prato de resistência nas festas mais chiques. De carne ou de frango? Era a pergunta de sempre.

No Rio, o sair de um self-service sofisticadíssimo, desses que oferecem comidas exuberantes e sabores refinados trazidos de todos os cantos do mundo, tive a plena certeza de que acabara de comer melhor do que imperadores romanos, príncipes de Gales e reis da Pérsia. Paguei 39 reais, 12 dos quais com vale-refeição.

Alvaro Abreu

Vitória, 15.10.2009

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