Águas passadas
Fui o nadador mais rápido do Espírito Santo por quase 10 anos. Faço parte da equipe de nadadores do antigo Praia Tênis Club, onde foi construída a primeira piscina semi olímpica de Vitória. Meus amigos mais antigos sabem disso e podem testemunhar a meu favor, se necessário. Não me lembro de como começou, mas posso garantir que éramos bem poucos os que entravam na água cheirando a cloro em busca de medalhas. Deve ter sido por mera brincadeira, nunca por estimulo de pais ou dirigentes. Todo moleque gosta de disputar com os colegas pra ver quem corre mais rápido, quem fica mais tempo debaixo d’água, quem bate primeiro na outra borda.
Com a chegada de Carlos Urbano, o Carioca, que treinava o time de basquete, a coisa começou a ganhar alguma seriedade. Lembro-me dele mandando a gente correr, fazer flexões, exercícios de alongamento e muito polichinelo. Depois do aquecimento era a vez de nadar de um lado para o outro, alternando o ritmo das braçadas. Ele estimulava o espírito de competição da turma com palavras de ordem e palavrões amistosos.
Por essas e outras é que a natação virou uma atividade relevante na minha vida de rapaz namorador que praticava muitos esportes. Dei braçadas em muitos lugares, a começar por Cachoeiro. Até hoje tem quem se recorde da disputa que travei com Mauro Madureira na piscina do Liceu, no início dos anos sessenta. Perereca, esse era o apelido dele, era ídolo na cidade. Dizem que só ganhei porque ele estava muito gripado, o que nunca foi comprovado. Nos jogos universitários em Curitiba, a água gelada anulou meses de treinamento, mas nos de Salvador, consegui um honroso oitavo lugar entre os bambambans da natação nacional.
Essas lembranças me vêm ao assistir provas de natação na Olimpíada do Rio. Sempre fico impressionado com a evolução dos índices nesses cinquenta anos. Em 1961 o brasileiro Manoel dos Santos bateu o recorde mundial dos 100m nado livre com 53.6 segundos. A marca atual ronda os 45. Hoje, as mulheres estão bem mais velozes do que eu fui. Nadando de costas.
Vitória, 10 de agosto de 2016
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA
