Pisaram na bola

Pisaram na bola

Com as transmissões ao vivo do processo do Mensalão, tomei gosto pelos embates que acontecem no Supremo Tribunal Federal. Naquela época, acamado, passei dias de olho na TV, tentando entender as argumentações e as firulas técnicas contra e a favor do que estivesse em questão. Acabei prestando atenção também nas atitudes dos ministros ao expressarem seus próprios entendimentos ou ao acompanharem a posição de um dos pares. Com o tempo, fui criando expectativas sobre o posicionamento de cada um deles nos embates jurídicos e, porque não, no contexto da política. Tudo isso foi ficando ainda mais claro na apreciação dos embargos infringentes e durante a definição dos ritos do processo de impeachment da presidente, a serem seguidos pelo Congresso.

Confesso que fiquei curioso pra ver as atitudes do ministro Lewandowski no comando da sessão do julgamento do Senado Federal. Eu acumulara desconfianças em relação àquele senhor de atitudes altivas, inteiramente ciente de seus poderes. Mas devo dizer que cheguei a concordar com senadores que elogiavam a imparcialidade e a firmeza com que ele vinha conduzindo aquelas longas e tumultuadas reuniões.

E foi com espírito desarmado que me sentei para acompanhar a votação final. O estado de alma leve durou só até quando o presidente Lewandowski anunciou, burocraticamente, que havia um pedido de destaque para ser apreciado antes da votação. Como muita gente, desconfiei ainda mais ao acompanhar as suas longas e bem concatenadas ponderações em favor do fatiamento do artigo 52 da Constituição, como se seguisse um script previamente combinado. O discurso extemporâneo do senador Renan gerou perplexidade e acabou por me fazer acreditar em mais uma tramoia. O fato é que o julgamento, além de fortalecer convicções que fundamentam protestos e mobilizações, acabou por gerar uma tremenda insegurança jurídica que vai consumir muita energia para se dissipar, mesmo que sob a batuta da ministra Carmem Lúcia, uma mineira firme e discreta, que presidirá o STF a partir da próxima semana.

Vitória, 06 de setembro de 2016

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

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