Motorista infrator

Motorista infrator

Na semana passada, fiz o curso de reabilitação de motoristas infratores. Foram trinta horas de aula sobre assuntos relevantes e outros nem tanto, sob um rigoroso sistema de controle de presença on line, via internet. Diariamente coloquei o indicador direito em uma leitora ótica varias vezes: ao entrar na sala, a qualquer tempo antes do recreio, na volta do recreio, a qualquer tempo durante a aula e ao final da aula. Ao todo, foram cinco noites da semana e uma manhã de sábado. Ainda me resta fazer uma prova.

Posso dizer que fui um aluno aplicado: prestei atenção no que diziam os professores e nos vídeos projetados no telão, mostrando consequências das irresponsabilidades e desatenções no trânsito, quase sempre associadas a excesso de velocidade, ultrapassagens proibidas, bebedeiras e coisas do gênero. Posso dizer que aprendi coisas que nunca soube sobre pneus, que incorporei informações valiosas sobre primeiros socorros, que aprimorei o meu bom senso como motorista e, sobretudo, como proprietário de veículo emprestado para amigos. Conheci pessoas infratoras de vários tipos, incluindo as totalmente resignadas, as relativamente envergonhadas e as parcialmente revoltadas por terem sido penalizadas pelas infrações que cometeram.

As aulas me fizeram refletir bastante sobre leis, direitos e deveres, sistemas de controle social, função educativa das penalidades e por aí afora. Tudo isso reforçado pelo que acontecia no mundo da política durante toda a semana: abertura de processos disciplinares contra autoridades, prisões de suspeitos estratégicos, divulgação de denúncia amiga, invasões autorizadas de domicílios e sedes, condução obrigatória para depoimento, bate boca e pancadaria, discursos inflamados, xingamento, ameaças veladas e outras nem tanto.

Sempre soube que o trânsito reflete de forma escancarada os valores adotados pela sociedade, em um dado momento. O que preocupa é perceber que, a cada dia, estamos mais competitivos, egoístas, nervosos e intolerantes.

Vitória, 08 de março de 2016

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

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