Gente fazendo bonito
Agosto está pródigo em acontecimentos significativos para a cidade. Dois deles foram produzidos por um casal de amigos: um em palácio de governo e outro no meio da rua, sob sol de inverno.
No início do mês, Hilal Sami Hilal abriu uma instigante exposição no Palácio Anchieta. No pavimento superior ele espalhou objetos inspirados pela chegada do primeiro neto: rodas, aviões e barquinhos enormes. No térreo, instalou uma rua cravejada de brilhantes sob luz de lua e pela qual se chega a um grande mapa mundi orgânico e colorido. Em sala bem pequena, Hilal colocou um livro aberto de muitas páginas, de três metros de altura e outros tantos de largura, o maior que já vi. Nele não se vê palavras, só paisagens com nuvens que podem embasbacar até marmanjo durão. A última sala está tomada por uma obra coletiva de grande impacto: teto forrado de espelho refletindo as paredes cobertas por desenhos enormes formados por dez mil nomes de gente querida. Todos eles escritos, com pasta colorida de papel de algodão, pelos dois mil e quinhentos alunos de escolas públicas que o artista incluiu no processo de criação.
No sábado passado, uns duzentos metros da rua Aprígio de Freitas, no bairro da Consolação, foram inteiramente pintados. Uma nova iniciativa da galerista Thais Hilal para tornar a rua onde o casal vive e trabalha mais bacana. A brincadeira envolveu amigos e moradores sob a orientação do grafiteiro Fredone, que pinta muros aqui e mundo a fora. O artista começou demarcando a obra no asfalto, com barbante esticado e giz. O serviço de pintura, com rolinho e pincel, só terminou com noite fechada. Quando lá cheguei, o pessoal já finalizava as últimas áreas e caprichava no acabamento das fronteiras entre o preto, o branco, o cinza e o vermelho. Cansadas e respingadas de tinta, as pessoas pareciam orgulhosas por terem feito, juntas, algo tão bonito naquele lugar de passagem.
Sem exagerar: quem não passar por aquela rua colorida ou não visitar a exposição de Hilal merece ficar de castigo, ajoelhado no caroço de milho.
Vitória, 24 de agosto de 2016
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA
