Faltou
Está faltando água lá em casa desde a semana passada. Isso nunca havia acontecido desde que nela nos instalamos em 1987. Fui pego de surpresa, embora acompanhasse as notícias sobre a longa estiagem que fez secar rios e córregos em quase todas as regiões do estado. Primeiro falava-se dos impactos na roça e, agora, também nas cidades. A partir do desastre de Mariana, as dificuldades de abastecimento de água potável viraram manchete assídua de capa de jornal.
Por aqui, não estamos acostumados a viver no seco. Ao contrário, fomos criados na base do esbanjamento e muito desperdício. Água era coisa abundante e baratinha. Só de uns tempos pra cá é que ela começou a ganhar status de recurso estratégico e a se falar na necessidade de economizar, inclusive fechando a torneira enquanto os dentes são escovados. Banhos, de preferência, bem curtos. Nada de ficar cantando debaixo do chuveiro. Faz tempo que não é politicamente correto lavar carro com compressor, admitindo-se seu uso, com restrições, para limpar o pó preto. Para piorar, a falta de chuva está obrigando a molhar as plantas de vaso e algumas que estão nos canteiros. O difícil está em conseguir fazer isso com a água da rua, como se diz.
Antigamente as casas tinham cisterna para armazenar, preventivamente, grande quantidade de água. A entrada do reservatório ficava sempre abaixo no nível do encanamento da rede, o que permitia a entrada de água mesmo em época de penúria. Uma bomba elétrica fazia o serviço de levar o precioso líquido até a caixa d’água instalada na laje. O tamanho da cisterna expressava o poder econômico e o nível de prudência do dono da casa. Não me recordo de falta d’água na nossa casa da Rua Madeira e Freitas, exceto quando entrava ar na bomba.
Tudo isso me fez lembrar de quando meu amigo Godinho voltou do Canada dizendo que os canadenses estavam se organizando para vender água limpinha para lugares onde ela estivesse insuficiente ou completamente poluída. Corria a última década do século passado e, confesso, achei aquela história um tanto alarmista.
Vitória, 21 de setembro de 2016
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA
