Estouro

Estouro

Normalmente escrevo a crônica na segunda feira, passo o pente fino na terça e envio para o editor do jornal na quarta. Desta vez, escrevo no domingo pra poder mandar na segunda cedinho. É que estou indo a São Paulo acompanhar a segunda edição do What Design Can Do?, evento internacional que minhas meninas organizam por lá.

Hoje está difícil falar de trivialidades. É que estes últimos dias foram pródigos em notícias de afrontas, achaques, descaramentos, conchavos, falsidades, espertezas, safadezas, blefes, cinismos, mentiras, complôs, armações e muito, muito mais. Coisa de louco, como se diz. Lentes, microfones e ouvidos captaram a movimentação das autoridades máximas dos três poderes da República em busca de uma saída para episódios que engrossaram a crise. Conseguiram, mas com perdas relevantes na credibilidade do STF, o que me preocupa.

Na semana anterior, centenas de deputados insones aprovaram na marra projetos de lei que anulam crimes cometidos, intimidam a justiça e asseguram impunidades variadas. No Senado, Renan tentou dar sequencia àquele atentado parlamentar, sem conseguir, ao menos desta vez. Para acabar de danar o ambiente em Brasília, na sexta feira dezenas de políticos poderosos foram acusados de corrupção pelo primeiro dos mais de setenta executivos da Odebrecht que irão delatar negociações comprometedoras, que escancaram de vez a podridão do nosso sistema político. Tem muita gente com cara de santo ficando desvairada com a coisa chegando nos seus calcanhares. A tensão na capital federal ganha dimensões explosivas e faz pensar num estouro de manada.

Confesso que estou perdido como cego em tiroteio e tão espantado quanto cachorro que caiu de caminhão de mudança. Impossível imaginar os desdobramentos desse quadro alarmante. Slogans, gritos de guerra, palavras de ordem já não dão conta de acompanhar a evolução de acontecimentos que se sucedem em ritmo frenético e em escala explosiva. Do jeito que a coisa vai indo, estas minhas palavras, ao serem lidas na sexta feira, poderão soar otimistas.

Vitória,12 de dezembro

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

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