Cachoeirense Ausente
Na semana passada estive em Cachoeiro. Fui tratar da candidatura de um grande amigo de infância a Cachoeirense Ausente de 2016. Trata-se de honraria conferida a pessoas que engrandecem a sua cidade natal, por seus méritos pessoais e suas realizações profissionais em terras distantes. A escolha é feita pelo voto secreto de representantes de vinte e tantos órgãos e entidades com atuação reconhecida na cidade. A escolha acontece todo ano, desde 1942.
Newton Braga, irmão de mamãe, inventou a festa de Cachoeiro justamente para reforçar as relações entre moradores e, também, para atrair conterrâneos espalhados por esse mundo a fora. Matreiro, ele a fez coincidir com o dia de São Pedro, padroeiro da cidade, festejado no dia 29 de junho, bem na boca das férias escolares. Na programação, desfile das escolas, festas populares, baile a rigor, atividades artísticas, torneio de briga de galo e tudo o mais que animasse as ruas e reforçasse a fraternidade.
Iríamos de carro, que é lugar bom pra colocar a conversa em dia e rir das histórias de adolescentes de cidade do interior: farras homéricas, apelidos engraçados, namoros famosos, doidinhos de rua, professores carrascos e muito mais. A comitiva incluía dois amigos do grupo escolar e uma animadíssima cabo eleitoral. Não se falou nada sobre a política nacional.
Enquanto esperava pelos outros, tratei de colher jabuticabas no quintal para oferecer ao nosso ilustre candidato. Ele adorou o presente e, em silêncio, foi chupando uma por uma. Para muitos marmanjos, jabuticaba tem sabor de infância, traz de volta lembranças da fazenda de avô e renova dúvida antiga: engolir ou não engolir o caroço?
À noite, nosso candidato deu uma palestra sobre energias renováveis, quando confirmou a sua vasta experiência profissional e defendeu o uso do bom senso e da racionalidade ao projetar grandes obras de engenharia: uma condição indispensável para minimizar seus impactos sobre a natureza e as populações. Exatamente o que tem faltado por aqui.
Vitória, 06 de abril de 2016
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA
