Sobre emoções cidadãs

Sobre emoções cidadãs

Só consegui chegar na manifestação de domingo no final da tarde, justo na hora em que o pessoal de Vila Velha começava a subir a ponte de volta pra casa. Uma cena simpática: famílias inteiras, grupo de amigos, casais de namorados, avós animados carregando netos, fortões sem camisa, estudantes de todas as idades, e muitos mais. Quase todos em verde e amarelo, andando rápido e com um grande sorriso no rosto. Parecia que estavam saindo de uma festa animada. Ninguém com cara feia, de ódio ou má vontade. Também não tinha ninguém com cara de arrependimento ou de vergonha por estar ali, muito embora fosse possível imaginar que alguns pudessem estar pensando na distância que haveriam de percorrer ladeira acima, ladeira abaixo, até pisar em terra firme do outro lado do canal. Por certo, a visão lá de cima da ponte ajudaria a enfrentar o cansaço, a dor nas pernas e o tênis novo. Tinha muita gente feliz da vida em poder participar, pela primeira vez, de manifestação tão numerosa, carregando cartazes ou usando camisetas com palavras de ordem contra o governo, a presidente, a roubalheira e tudo o mais que anda irritando tanta gente.

Andando a pé, passamos pela praça do pedágio e caminhamos, no contra-fluxo, até a Praça do Papa, que já encontramos quase que inteiramente vazia, pois os moradores de Vitória já tinham caçado o caminho de casa. Depois de comprar uma garrafa d’água no único ambulante que ainda estava por lá, conversei com o pessoal que acabara de desmontar o sistema de som e se preparava para ir embora. Dava pra ver que estavam satisfeitos por terem feito muita gente cantar no sol quente.

Tanto na ida, como na volta, passamos por ruas e lugares predominantemente usados pelos carros. Só ali me dei conta que, ao volante, nunca percebera a falta de árvores e a aridez das calçadas e das paredes impregnadas de sujeira. É provável que só uns poucos manifestantes tenham reparado nisso também. Andando em grupo, no meio da multidão, ninguém se sente fraco nem enxerga direito o que esteja em volta.

Já em casa, vi a entrevista de dois ministros atônitos, porém convictos das suas verdades e cientes de suas obrigações políticas e funcionais. Alguma coisa haveria de ser dita, obrigatoriamente. Algo que ajudasse a contrapor os fatos, a minimizar a relevância dos acontecimentos. Os dois tiveram tempo de sobra sob os holofotes, na mira das câmeras, mas é certo que tenham sido aplaudidos apenas pelos que ainda permanecem a favor. Fui dormir cedo, tentando imaginar os desdobramentos do que tinha visto nas ruas e na TV.

Nem bem acordei na segunda-feira, fui tomando conhecimento da prisão do ex-diretor da Petrobras indicado pela cúpula do partido da presidente e de pessoas que operavam o esquema de propina em posição de mando. Adorei o nome da nova operação da Polícia Federal: “Que País é Esse?”. Leve e sarcástico, indica que algo muito relevante vai, progressivamente, tomando forma e ganhando expressão. Sou dos que sempre acreditaram nos impactos positivos do Mensalão, por demonstrar de forma cabal que é possível enfrentar a lógica e as práticas dos poderosos e dos fortes. Pelo que estou vendo, o país já está mudando de cara e muita gente ainda não se deu conta disso. O fato de estarem presos dirigentes e donos das maiores empreiteiras do país, diretores da maior empresa brasileira e operadores oficiais da roubalheira faz acreditar que começa a se mostrar viável fazer política de outro modo: mais limpo, mais certo, melhor. Que venham as mudanças nas verdades, nas atitudes e nas leis!

Vitória, 18 de março de 2015

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

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