Sevá

Sevá

Não está nada fácil definir um tema de crônica que possa ser lida até o final por leitores de todos os tipos e interesses. Depois de passar um fim de semana espetacular ao lado de três casais de amigos à beira mar, em despedida do verão, a semana começou bem tristonha e sem graça.

Pelo telefone, recebi o chamamento para dar sequencia à obrigatória e extremamente penosa tarefa de distribuir os objetos da casa de mamãe. Pela internet, em poucas palavras, a notícia da morte de um velho amigo, desses que são difíceis de ser encontrados durante a vida. Ele passara os últimos meses às voltas com cirurgias, hospitais, remédios, respiradores, e tais. Relatos esparsos de familiares davam contam das dificuldades de toda ordem, desconfortáveis e dolorosas, que iam se impondo de forma progressiva, impiedosamente. As informações sobre a saúde sempre vinham juntas com as que diziam da sua maneira serena de enfrentar os fatos sem reclamar. No começo, ele mesmo escrevia sobre a evolução do quadro, sempre de forma positiva, apesar dos pesares. Estive com ele em Campinas, pela última vez, há mais de um ano. Depois de nos olharmos em silêncio por um bom tempo, meio que passando em revista as coisas boas que vivenciamos lado a lado e os perrengues que enfrentamos frente a frente, instalou-se um ambiente fraterno inteiramente livre de incômodos e desconfortos. Diante de realidade tão dura, do prenúncio da morte, sentimos juntos minutos de tristeza intensa pelas lembranças das perdas acontecidas no passado e a certeza de outras que aconteceriam dali por diante.

Ele não era uma dessas pessoas que estão sempre alegres e de bem com a vida, com participação ativa nas redes sociais. Fazia rir e fazia chorar, com convicção, pela forma limpa e direta de tratar de assuntos do cotidiano, de se relacionar com as pessoas, de defender suas posições, de enfrentar os que causavam danos e os que defendiam interesses escusos. Acima de tudo, Sevá, esse era o nome dele, Arsênio Osvaldo Sevá Filho fazia pensar: os amigos, os alunos, os colegas de universidade, os chefes da vez, as autoridades constituídas e, sobretudo, os opositores de suas teses e os seus desafetos. Ninguém passava imune ou distraído por uma conversa com ele, por uma palestra ou uma aula sua.

Vejo, agora, que ele passou a vida como pouca gente, muito pouca mesmo, passa: brigando por melhores condições de vida para os homens. Há uns três anos ele me escreveu pedindo sugestões para organizar o site que criara, onde ele tinha colocado uma parte importante de tudo o que havia produzido. Fui lá conferir e me vi diante de um mundaréu de textos, artigos, projetos, anotações, planos de curso, aulas inteiras e muito mais. Ali estava apenas o que havia sido digitado, diria que do começo dos anos noventa prá cá. Apenas uns poucos vestígios do que ele havia escrito nos vinte anos anteriores, em papel. Confesso que cheguei a achar graça. Sugeri que ele tentasse fazer uma grande triagem do que considerasse mais relevante e oportuno. Que classificasse aquela espécie de tesouro por tema, época, briga, lugar, finalidade, enfim, por critérios que permitissem localizar o que ele tinha produzido sobre impactos ambientais, econômicos e políticos provocados por usinas hidrelétricas, barragens, fábricas, portos, minas, pela indústria pesqueira e por aí a fora.

Nas conversas do fim de semana entre amigos de boa idade, havíamos concordado que os homens são mais lembrados pelo que produziram durante a vida do que pelo que conseguiram acumular.

Vitória, 04 de março de 2015-03-04

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

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