Passeios de família grande
Hoje em dia falar em ter muitos filhos espanta os mais novos. Talvez pela trabalheira que dá, pelo preço das coisas, pelo tamanho dos apartamentos, pela vida que os pais levam, ocupadíssimos com estudos e muito trabalho. Sou de um tempo em que as famílias, sobretudo as do interior, eram numerosas. As minhas duas avós tiveram um total de vinte e três filhos, dos quais uns quinze chegaram à idade adulta. Lá em casa somos cinco irmãos e aqui temos três meninas e dois meninos, já bem criados. Pai de tantos, nos anos oitenta achei por bem comprar um ônibus, desses bem grandes, para passear com a família por esse Brasil afora. Montamos uma espécie de moto-home caseiro, com cama para mais de dez, cozinha, banheiro, sofá, duas mesas, poltronas para dezesseis e poleiro para Aurora, a arara da família. Deu muito certo. O pessoal tem ótimas lembranças e, vez por outra, alguém pergunta quando vou comprar outro, para levar a família inteira para viajar.
Quando voltávamos da Paraíba, marcamos com três casais de amigos de nos encontrarmos em Cumuruxatiba, na Bahia, recém-descoberta pelo mundo do turismo. Fizemos um acampamento à beira mar, pra marmanjo nem menino algum botar defeito. Vinte anos depois voltamos lá, em três carros lotados. Alugamos uma casa enorme, do tipo sede de fazenda, com muitos quartos, salão central, cozinha grande, varanda em três dos lados, gramado diante do mar, coqueiros e mangueiras. Isso, sem contar com as goiabeiras e os pés de cana caiana do vizinho. Foi um tempo de comer peixe frito e camarão no bafo, tomar água de coco, chupar manga espada docinha, tirar soneca na rede, curtir fogueira, caminhar na areia dura da praia, beber cerveja, além de fazer muita colher. Foi lá que Manu, ainda bebê, forçou o aprendizado materno, paterno, de tios e avós.
Neste último fim de semana gordo, conseguimos juntar quatro dos filhos, dois genros, duas noras e seis netos. Só faltou Bebel, cheia de compromissos, morrendo de inveja. A convite de família amiga, passamos quatro dias num sítio de uma capixaba que vive longe, mas mantém, por sabedoria, um pé na região do Alto Caxixe. Da parte elevada do terreno, vê-se de um lado o Forno Grande, com seu formato de vulcão silencioso e, de outro, um lagarto tentando subir a encosta quase vertical de um enorme maciço rochoso. Céu azul, muita luz e pouco vento garantem a sensação de se estar pertinho do céu. Na parte baixa do terreno, uma casa muito peculiar, com um salão aberto, convida ao ócio e à realização de atividades variadas, inclusive a de fazer colher sem se preocupar com as lascas de bambu. Na parte da frente, diante de um laguinho vigiado por dois gansos atentíssimos, instalaram uma mesa enorme de madeira grossa, que comporta quatorze pessoas comendo, falando alto, rindo de bobagens, como convém nessas ocasiões.
Uma friaca danada demandou roupa pesada e estimulou goles fartos de vinho, de rum caribenho que ganhei de presente, de cachaça sem rótulo que levei. Um forninho serviu de lareira enquanto assava pizzas noite adentro. Os nossos seis netos fizeram festa à parte. Manu, a mais velha, praticou seu grande interessa pelas plantas e bichos, Theo desenhou tubarões de todos os tamanhos, Alice dançou balé, Gael, sempre de boné, chutou bola para todo lado, Gabriel não parou de jogar pedrinhas no lago, para o desassossego da mãe e Joaquim, o nosso Quinquim, olhava tudo com olhos esbugalhados, distribuindo sorrisos de criatura feliz. Posso garantir que tudo está registrado nos celulares da família.
Vitória, 10 de junho de 2015
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA
