Já passou da hora
O nascimento do neto Joaquim me fez passar uns vinte dias em São Paulo, em viagem de interesse estritamente familiar. O moleque é do tipo tranquilo e bem comportado: nem de longe é daqueles que golfam o leite que tirou da mãe ou dos que têm cólica que os fazem chorar até ficarem roxinhos a ponto de desesperar quem estiver por perto. Trata-se, ao menos por enquanto, de uma dessas crianças da categoria “mama-e-dorme”, daquelas que defendem seus direitos com grito forte e que pegam logo no sono quando estão de barriga cheia.
Como não seguro criança novinha no colo, passei os dias fazendo serviços de apoio à mãe e pequenas melhorias na casa. Aproveitei para me alienar geral, longe das fontes de informações. Li apenas um único jornal, assim mesmo sem prestar muita atenção nas notícias sobre atentados, roubalheiras petrolíferas e mesmices de começo de governo. Foi pelo telefone que fiquei sabendo do descalabro do pó preto que assolava Vitória. A falta de chuvas e a força dos ventos neste começo de ano fizeram voar longe partículas de minério de ferro, de carvão e fuligens das chaminés como há muito tempo não se via. Pelo que me disseram, foram muitas e muitas toneladas de pó que caíam do céu durante semanas seguidas, tirando muita gente do sério a ponto de protestar nas redes, pela imprensa e em pleno sol quente de Camburi.
Pelo jeito, parece que desta vez o processo atingiu o chamado ponto de não retorno, marcando o fim dos tempos de transgressões e desrespeitos impunes. Daqui pra frente não mais haverá trégua ou condescendência com as empresas que poluem o ar, com órgãos de governo que não as controlam nem penalizam e com dirigentes públicos que fazem de conta que estão tomando providências. Também parece que se esgotou a paciência coletiva com as desculpas esfarrapadas e as soluções meia-boca. O descalabro da sujeira foi de tal ordem que tem muita gente defendendo a necessidade de encapsular totalmente as pilhas de minério e de carvão e as esteiras transportadoras, exatamente como se faz lá no estrangeiro. Incluo-me na turma dos que acham que já passou da hora de impor medidas que civilizem o progresso e livrem a população dos seus incômodos e males. O bom senso indica que é preciso agir prontamente e em bases definitivas, pois as indústrias sediadas na Ponta do Tubarão deverão continuar funcionando ali por muito tempo, desgraçadamente.
Tudo isso me fez lembrar de quando cheguei de volta a Vitória em meados de 1987. Embora fosse necessário limpar a casa duas vezes ao dia, os nossos comentários não encontravam eco junto a parentes e amigos. Parecia reinar por aqui um amplo acordo tácito em favor das grandes empresas porque ofereciam empregos, geravam renda e impostos e tudo o mais, ainda que sujando tudo com um pó fininho e fazendo a cidade feder no começo das noites de vento nordeste. Quem não se lembra da catinga que vinha lá das bandas de Coqueiral de Aracruz? Naquela época, por várias vezes tive vontade de pedir audiência aos dirigentes do porto de minério, das usinas de pelotização e da usina siderúrgica, muitos deles conhecidos meus de juventude, para devolver o material recolhido dentro de casa. A minha vingança seria assoprar uma boa quantidade de pó sobre a mesa de trabalho de cada um deles e espalhar o resto pelos móveis da sala, com a melhor cara deste mundo. Por certo, o meu protesto solitário não provocaria qualquer mudança relevante nas condições ambientais da região, mas eu teria uma história sensacional para contar pros meus netos.
Vitória, 27 de Janeiro de 2015.
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA
erdadeira
