Calor, pó preto e sorvete
Em busca de tema, entre uma cerveja e outra, ouvi amigos e parentes. Como desconfiava, deu pó preto na cabeça por grande maioria dos votos válidos. O assunto foi destaque nos blocos de carnaval em Manguinhos, no centro de Vitória e na Barra do Jucu, e inspirou a fantasia de muitos foliões debochados.
Durante a semana aconteceram manobras para a criação da CPI do Pó Preto na Assembleia Legislativa, com deputados disputando vaga na comissão. Ao lado disso, este jornal publicou tabela mostrando que uma metade dos deputados eleitos recebeu, oficialmente, doações de campanha das empresas proprietárias do pó preto que cai do céu diariamente sobre a cidade. Longe de mim afirmar que se trata de uma compra de silêncio parlamentar ou de uma espécie de parceria para defesa de interesses em comum. Mesmo porque, feitas as contas, o valor investido pelas empresas nos partidos e candidatos é quase nada se comparado à dinheirama com os salários e facilidades a que cada um deles terá direito nos próximos quatro anos, saída diretamente do bolso dos eleitores que sofrem com o pó preto.
Sugeriram também que eu escrevesse sobre o medo das blitz na volta da folia. Pudera! Tem muita gente com carteira de motorista apreendida por ter acumulado uns tantos pontos por infrações de trânsito. Algumas bem graves e outras nem tanto, como ser flagrado em velocidade minimamente superior a dez por cento da permitida, estacionar com uma roda na calçada ou sobre a demarcação de uma entrada de garagem. Paga-se multa pesada e fica-se sem carteira por meses. Nessa mesma linha, prefeituras penalizam quem suje e não limpe, quem faça barulho, quem pode árvores e muito mais. E as multas aumentam bastante em casos de reincidência. Agora, em tempos de escassez, tem gente pretendendo multar quem for pego lavando carro ou calçada com jato d’água.
Como um bom pagador de multas municipais, estaduais e federais em geral, me pergunto quando será que esse tipo de ação civilizatória vai atingir também, e com a indispensável contundência, as poderosas empresas que lançam sobre a cidade toneladas de poeiras que sujam as coisas e envenenam as pessoas. Faltam leis e normas que fundamentem o controle e assegurem as punições. Sou dos que defendem que os poluidores sejam sistematicamente penalizados com pagamento de multas de valores progressivos e exponenciais, inclusive com paralisação da produção. Só assim as penalidades serão indutoras de investimentos e providências urgentes para adequar suas instalações.
Essa minha convicção só aumentou com o que vi na festa de aniversário de cinco anos da minha neta Alice, na quinta feira passada, ali na Enseada do Suá. A grande maioria das crianças convidadas veio direto da escola, andando a pé em fila indiana, de mãozinhas dadas e animadíssimas. Todas de uniforme, cabelos despenteados, sem qualquer salamaleque. Depois de uma tarde inteira no colégio, algumas já estavam bem encardidinhas. Assim que chegaram, foram levadas por recreadores profissionais para a quadra do prédio, deixando os sapatos no canto do salão. Só as vi de novo quando formaram filas para ganhar sorvete na casquinha. Notei que estavam imundas, da sola dos pés até as bochechas. Mas foi na hora de cantar o parabéns que a coisa ficou literalmente preta e chocante. Suadas pela correria no calor infernal e batendo palmas de olhos nos doces, quase todas tinham pernas e braços lambuzados de sorvete coberto com pó preto, coisa de matar mãe de vergonha. Uma boa fotografia daquela cena sensibilizaria qualquer deputado.
Vitória, 18 de fevereiro de 2015-02-18
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA
