Tempo de Manjubas

Tempo de Manjubas

A curiosidade me fez parar o carro para conferir de perto o que estava acontecendo naquele lugar, normalmente freqüentado por despreocupados banhistas. Movimentação diferente para um fim de tarde chuvoso, de vento sul. Muita gente na areia da praia. Calçada repleta de pequenos grupos de pessoas visivelmente atentas e falantes.

Verdadeiro alvoroço em volta de um monte de peixe. Uns 200 ou 300 quilos acabados de tirar das águas faziam o espetáculo da fartura. O olhar experiente permitia saber que eram manjubas e sardinhas. Muito mais manjubas que sardinhas. Embora parecidas, as sardinhas são mais roliças e as manjubas mais largas, achatadas. Todas têm dorso azul e barriga prateada, brilhantes.

Um homem moreno, agitado, parecia querer organizar os movimentos e as providências de uns tantos ajudantes improvisados. Tinha urgência, mas demonstrava pouca prática na função. Sem qualquer dúvida, ali estava um calejado pescador às voltas com a difícil tarefa de vender aquela grande quantidade de peixe que acabara de pescar.

Ele parecia saber que havia concorrência por perto. Teria que ser rápido para aproveitar a oportunidade de ganhar um dinheirinho extra, tratando de atender os fregueses que disputavam sua atenção. Muita gente, entusiasmada com aquela cena inusitada, queria saber o nome dos peixes, os preços, a maneira de cozinhar, se tinham muita espinha e coisas do gênero. O homem tentava responder com alguma gentileza, mas aflito em atender quem efetivamente quisesse comprar.

A cada pedido, os peixes iam sendo colocados em sacolas usadas de supermercado para serem pesados em uma balança no chão. Nenhuma preocupação com a precisão. Quatro ou cinco peixes a mais garantiam a satisfação do cliente, abrindo espaço para o sorriso. A tal lei da oferta e procura estava em pleno vigor naquela calçada e o tempo trabalhava contra todos os pescadores. A chegada da noite afastaria os fregueses, favorecendo a vida dos atravessadores.

Bem perto dali, grandes quantidades de peixe estavam sendo trazidas da beira do mar em um balaio feito de pedaços de rede. A carga era suspensa por dois remos apoiados nos ombros de seis homens animados, que venciam a areia fofa com passos miúdos e acelerados. Os peixes, muitos ainda vivos, eram derramados dentro de uma batera estrategicamente colocada rente à calçada. As viagens eram sucessivas e em ritmo frenético.

Pedi dois quilos de sardinha. Pretendia preparar uma conserva que havia aprendido na teoria: azeite, vinagre, cebola, louro, pimenta branca, sal e 20 minutos de panela de pressão. Um simpático aposentado, que também esperava a vez, confirmou a receita, sem revelar detalhes.

Meu pedido foi transmitido por aquele homem, que já demonstrava cansaço, ao menino que parecia ser seu filho. Era preciso catar uma a uma as sardinhas perdidas em meio às manjubas. Em menor quantidade e mais saborosas, elas custavam três vezes mais. Mesmo assim, o preço estava bom.

Nem bem paguei e já recebia a oferta dos serviços da turma que atuava na limpeza dos peixes. Mulheres entusiasmadas trabalhavam com os pés na areia, encurvadas sobre a calçada, que elas usavam como bancada. Com facas de todo tipo, tratavam de tirar as escamas, cortar a cabeça e abrir a barriga do peixe para tirar as tripas. Movimentos rápidos e certeiros faziam o trabalho render. As crianças, em volta das mães e irmãs, ajudavam no que podiam. Depois de tratadas, as sardinhas eram lavadas em baldes com água trazida do mar por meninos que estavam por perto. O preço da limpeza também era compensador.

A chuva, que até então ameaçava, começou a cair aos poucos, fria, vinda do sul. Isso aumentou a aflição do pescador e fez surgirem caixas de plástico do baú de um caminhão que estava estacionado do outro lado da rua, como se esperasse a hora de atacar. As caixas traziam a marca de uma empresa de pesca.

Terminada a fila dos fregueses, restou ao pescador autorizar que seus peixes fossem colocados nas caixas com a ajuda de uma pá de plástico improvisada. Uma balança daquelas grandes, com rodinha e pescoço, surgiu do nada. Depois de pesadas, as caixas iam sendo levadas para o caminhão por rapazes de olho na gorjeta prometida pelo motorista. No papel de único comprador, ele negociava abatimento significativo no preço do pescado, usando cara de desdém para dizer ao pescador exausto que era pegar ou largar.

No mar, dois homens em um barco pequeno se preparavam para fazer o último lançamento do dia. O que ia sentado na proa remava de costa. O outro, de pé, olhava as águas em busca de sinais do cardume. Entre eles uma rede cuidadosamente empilhada no fundo da embarcação, pronta para ser lançada. A ponta de uma das suas cordas tinha sido deixada em terra e a outra chegaria à praia, trazida pelo barco. No centro da rede uma espécie de balão, feito de malha bem menor, completava a armadilha.

Mesmo de longe, dava para ver que ambos estavam de prontidão. Precisavam localizar os peixes e, rapidamente, tratar de cercar o cardume antes que ele escapasse, levando embora as alegrias da pesca. O movimento tremulante e a cor escura das águas eram os únicos sinais da presença das manjubas. Em terra, olheiros ajudavam a localizá-las e tentavam, com gritos e gestos largos, orientar os que estavam a bordo.

Um senhor, com os olhos brilhando no rosto marcado pelo sol de muitos anos, repetindo, para quem quisesse ouvir, que estava apenas começando a temporada da pesca da manjuba. Dizia que elas sempre apareciam entre janeiro e abril. Perguntado, ele não soube dizer de onde elas vinham nem para onde iriam. Assim como não sabíamos os caminhos dos cardumes de carapaus que divertiam muita gente a cada mês de março da minha juventude nas águas da Praia do Canto.

Eram muitas as redes naquela praia. Perto dali, começava a retirada da que tinha sido lançada ao mar um pouco mais ao sul. Dois grupos de pessoas enfileiradas se mobilizavam para o serviço, esticando as pontas da corda, ainda bem distantes uma da outra.

A pesca de arrastão é coisa que só pode se feita por muita gente junta. Agarrados às cordas, homens e mulheres puxam a rede lentamente praia acima, fazendo força na medida das suas possibilidades. Vêm com os corpos jogados para trás, movidos pelo sentido de cooperação. No rosto de cada um a expectativa de conseguir retirar do mar uma boa quantidade de peixes.

Atividade muito antiga, a pesca de arrastão tem a caoacidade de nos levar de volta às origens, nem que seja por alguns instantes, num final de tarde de chuva fria, em pleno janeiro, na praia de Itapoã.

Vitória, 14 de fevereiro de 2007.

Alvaro Abreu

alvaro@bambuzau.com.br

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