Sobrevivência
Recebi de um amigo das antigas uma mensagem em busca de cumplicidade. O assunto do e-mail era “da nossa época” e o texto dizia: “Você já viu isso? Abraço, Marcos”. O arquivo era uma apresentação em power point com letras coloridas, tendo Help, dos Beatles, como fundo musical, intitulada “Como você pôde sobreviver?”.
Nela o autor lembra as condições enfrentadas pela garotada durante os anos sessenta e setenta nas cidades brasileiras. Uma listagem de arrepiar pais e mães criados em tempos de atitudes politicamente corretas, neste mundo certinho das práticas reforçadas pelos que vendem produtos e serviços para manter crianças a salvo e reduzir as aflições dos adultos responsáveis: descer ladeira em carrinhos de rolimã, nunca usar capacetes, joelheiras e cotoveleiras, beber água de torneira, jogar pelada no meio da rua, andar de carro sem cinto nem travas de segurança nas portas, guardar remédio em armários sem chave, e vai por aí a fora. Saudosista, o autor lembra também que as pessoas almoçavam em casa, que cachorro tomava banho com sabão de coco, que não se falava em obesidade, dislexia, falta de concentração, hiperatividade e que ninguém ia a psicóloga ou psicoterapeuta. As brincadeiras e as brigas de meninos aconteciam na rua e no quintal das casas dos amigos, onde se entrava sem bater.
Tendo lido tudo com atenção, posso dizer que sou dos que sobreviveram às condições adversas daquela época e, melhor do que isso, dos que aproveitaram as vantagens da vidinha calma e rotineira de uma cidade pequena, na qual algumas pessoas, personagens seria o termo correto, ajudavam a compor a cena urbana. Vejo agora que elas formam muitas das imagens que guardo daquela época.
Começo pelas figuras dos pescadores: mestre Don Don, que virou nome de restaurante, e o sisudo Dr. Franklin de Carvalho, que gostava de pescar da calçada em frente da Chácara Von Schilgen. Dos vendedores ambulantes, lembro-me de Zé do Coco empurrando um carrinho de mão pelas ruas da Praia do Canto, de um velho que carregava verduras em duas enormes peneiras e de Baiano, que vendia camarão no portão das freguesas. Na Praia do Barracão ainda consigo acompanhar as braçadas compassadas de Gringo, que vinha a pé do centro da cidade. Quem não se lembra de Noguerinha, presidente de honra do Praia Tenis Club, segurando um copo de cerveja, de Carioca, um enérgico treinador de basquete e natação, de Otinho, na sua simpatia apressada, sempre segurando folhas de papel ao maço pelas calçadas e de Carmélia de Souza, que movimentava os poucos bares da ilha. Seu Henrique, ao lado da igreja Santa Rita, e Zé Pretinho, em Santa Lúcia, eram donos de bar igualmente mal humorados, enquanto Ataré, de frente ou de ré, era o eterno candidato a vereador nas eleições municipais. Pedrinho, o carteiro, sempre se sentava na varanda lá de casa para tocar de violão e Adotivo, um preto risonho, cantava “Não sou o réu, mas a justiça me condena”. Morris Brown, atleta campeão em muitas modalidades, era dos poucos que tinha motocicleta por aqui. No Colégio Salesiano, o padre Crico tentava ensinar os segredos das células para alunos desatentos.
Em Vitória muita gente era conhecida por apelidos que expressavam estilo pessoal, comportamento ou condição social: Foguetão, Pé de Burro, Bardal (o melhor amigo do seu carro), Cereba, Mococa, Paru (que até virou sobrenome de família), Paçoca, Fureba, Banal, Chupetão, Cadeado, Brocoió, Xiru, Bodão, Pé de Pato, Mela o Bico e Maria Tomba Homem. Volta e meia encontro quem ainda me chame de Cabeção.
Vitória, 29 de abril de 2014
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA
