Ferramentas

Ferramentas

Os últimos dias foram de fortes emoções. Além de reunir o conselho da incubadora de empresas, dei palestra sobre sistemas avançados de gestão da produção para 140 empresários e aula sobre inovação de atitudes para mais de 15 professores. A Semana Estadual de Ciência e Tecnologia e o Salão do Inventor fizeram grande sucesso. Faltou cadeira e sobrou discurso sobre o futuro da cidade em solenidade para marcar o início da implantação do Parque Tecnológico e encaminhar o projeto de lei que institui o sistema municipal de apoio à inovação. Tendo feito 62 anos na sexta-feira, considerei o evento como festa de aniversário.

Inovar é coisa própria do bicho homem. Desde que se tornou racional, ele inventa para sobreviver, para facilitar a vida, para cuidar dos seus. As ferramentas são extensão das mãos, dos braços, da cabeça. Elas aumentam a potência, economizam o esforço, viabilizam o aperto, tornam possível muita coisa. O homem as cria por força da observação, experimentando, comparando, repetindo. Gosto de imaginar nossos ancestrais aprendendo a usar o porrete para golpear intrusos e abater animais, testando a cunha de pedra lascada para dividir a caça e se valendo de um galho como alavanca para tentar tirar pedras do interior da caverna.

Da minha parte, declaro admiração por instrumentos que o homem foi criando em função de suas necessidades prementes a cada etapa da sua existência. Tenho grande estima por minha foicinha paraibana, por uma goiva feita em Valadares e pelas faquinhas que uso para cortar bambu. Começo a usar pinças e ferrinhos de dentista, que feitos em aço muito resistente, são perfeitos para serviços de precisão.

Tenho duas caixas de ferramentas. Na primeira, guardo preventivamente parafusos e pregos de todo tamanho, molas, porcas, peças de metal e tudo o mais que possa ser utilizado para consertar alguma coisa, para fixar o que precisa ser fixado. Alicates, martelos, chaves de fenda, formões, chaves de grifo, punção, grosa, lima, torquês, serrinha de aço e chaves de boca ficam numa outra caixa menor, abarrotada.

Adoro ter por perto barbantes, cordas e cordinhas. De algodão, sisal, nylon e, sobretudo, de tucum. Tenho guardadas longas tiras de couro e linha encerada para costurar sapato. Sou usuário, desde sempre, de borracha de câmara de ar para prender quase tudo, inclusive molinete, toldos e cabo de barraca de praia. Com argumentos lógicos, consegui trazer meu armário de sobrevivência para a sala da televisão, deixando tudo bem ao alcance das mãos. É que sou fã do MacGyver da TV, aquele que faz avião com pedaços de lata, motor de geladeira velha e durex.

Em função disso tudo, e para evitar que continue aumentando perigosamente o contingente dos que não sabem pregar um prego, serrar uma tábua, colar duas madeiras, proponho que se inclua na tal lei da inovação, um artigo com a seguinte redação: “Toda criança de Vitória tem direito a receber dos pais, além de computador e ponto de internet, uma caixa onde possa guardar as ferramentas que usará para consertar o que estiver quebrado e inventar o que bem entender, para sua satisfação pessoal.”

Alvaro Abreu

Vitória, 28.10.2009

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