Pode acreditar
Domingo acordei com preguiça completa. O tempo ruim, visto da cama pela janela do quarto, era de desanimar qualquer um: lá por volta das oito e meia, estava totalmente sem vento, com nuvens escuras e homogêneas indicando que programas à beira mar e em calçadas e praças poderiam ficar inviáveis durante o dia inteiro. Antigamente, um domingo chuvoso era apenas um domingo chuvoso. As pessoas ficavam em casa, resolviam fazer uma comida, inventavam um joguinho de baralho, esperavam a hora da transmissão do futebol. Com dois ou três telefonemas, a restrição estava perfeitamente contornada e a alegria de viver reestabelecida.
Não sou do tipo que adora sol. Já fui. Hoje em dia tenho preferido mais e mais a sombra, quando muito o solzinho das primeiras horas da manhã. Não acho graça em protetores solares e ainda não aderi a essas roupas modernas que funcionam como um bloqueador. Até já ganhei uma de manga comprida, mas não a uso regularmente, por uma razão qualquer.
O propósito turístico do domingão era o de atravessar a ponte para ir almoçar na Barra do Jucu. Como no sábado havia soprado um inesperado vento sul, é bem provável que as anchovas tivessem aparecido por lá. Elas costumam se aproximar das pedras quando o tempo esfria. Não tenho a menor explicação técnica para oferecer, mas posso assegurar que falo a verdade e que isso pode ser perfeitamente comprovado. Durante muitos anos frequentamos por lá um restaurante cuja especialidade era anchova assada. Peixe de carne muito tenra, precisa de muito pouco tempo de forno para ficar no ponto. Torço para que ele ainda esteja funcionando e sob a direção da mesma dona. É um ótimo lugar para ficar tomando cerveja, falando bobagens, vendo o movimento das marés e o voo das garças carrapateiras nos fins de tarde.
Pretendia aproveitar o passeio para conferir se ainda está por lá uma enorme concha marinha. Digo enorme porque ela deve ter uns oitenta centímetros de diâmetro. Bem sei que tem gente que vai logo dizer, e com alguma dose de razão, que isso é coisa de mentiroso. Realmente é difícil imaginar que exista uma concha tão grande assim. E foi exatamente por isso que fiquei entusiasmado quando a vi num canto de uma sala menor, junto com outras coisas do mar, naquele restaurante que fica diante da igreja. Era a contra prova que eu precisava.
Pode até ser que a TV já tenha mostrado algo parecido. Mas por aqui, ao vivo, se falar que existe, ninguém acredita. E foi exatamente por isso que resolvi manter em solene segredo por muitos anos a história da concha que eu tinha visto lá em Abrolhos, no sul da Bahia. Não contei nem para o pessoal que estava mergulhando junto comigo. Somente consegui vê-la do alto: só existia a parte de baixo, que estava presa na beirada de um grande coral e aberta pra cima. Era dessas de beiço ondulado e devia estar a uns nove metros de profundidade. Com os pulmões e tímpanos destreinados, só consegui me aproximar uns três metros dela, mas com a água cristalina a vi perfeitamente. Custei a acreditar. Com o coração acelerado, voltei à tona para respirar, sempre de olho na sua posição e mergulhei novamente, agora com disposição para chegar mais perto. Bem sei que peixes, lagostas e conchas aumentam de tamanho quando vistos dentro d’água, mas aquilo era realmente algo inacreditável. De volta à tona, enquanto recuperava o fôlego boiando a deriva, acenei para um colega para que pudesse ver também. Como ele custou a chegar, acabei perdendo o lugar onde ela estava e ficou por isso mesmo.
Vitória, 21 de janeiro de 2014
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA
