Pauta congestionada
Todo mundo sabe das dificuldades que se tem na hora de escolher o tema de uma crônica. Volta e meia experimento as agonias desse processo de busca nervosa por um assunto que possa ser de interesse do leitor e passível de ser debulhado com três mil e quinhentos toques. Digo processo porque é alguma coisa que fica presente durante um bom tempo na cabeça, disputando atenção com as demais atividades do dia a dia. Nervosa porque se trata de um jogo, com data marcada para entregar o texto ao jornal.
Como sempre, assunto é o que não falta. Nesta semana, a lista dos preferidos foi encabeçada por dois fatos relevantes. O primeiro deles foi a publicação de normas federais para garantir boas condições de visualização do Convento da Penha aos que circulam por avenidas e calçadas de Vitória e também de Vila Velha. Mesmo acreditando que isso possa parecer irrelevante aos que andam sem olhar em volta e aos que não se importam em viver emparedados, sei que sou um dos muitos que comemoram tal providência. Bato palmas aos responsáveis, sabendo que a decisão contraria interesses dos que teimam em bloquear a paisagem urbana. Trata-se de uma efetiva demonstração de cuidado com a cidade e com seus frequentadores de hoje e de amanhã.
O outro é o imbróglio que envolve a aplicação de pesada multa federal aos responsáveis pelo campo do Santa Cruz, em Santa Lúcia, lugar de memoráveis peladas em barro úmido de mangue, derradeiro espaço para ensinar futebol e bons modos para a garotada do bairro e adjacências. Pelo que pude ler, a Prefeitura da cidade pretende aprovar lei proibindo a construção de prédios naquele lugar, inclusive de autarquias do governo federal que já demonstraram interesse. Por certo, isso daria uma crônica raivosa, dessas de comprar briga com autoridades responsáveis pela cobrança da tal taxa de marinha, uma verdadeira sandice legalizada, que inferniza muitos moradores de cidades litorâneas deste nosso Brasil.
Também caberia escrever uma crônica leve contando que as mulheres daqui de casa andaram fazendo biscoito de nata, usando a receita deixada por mamãe. É mais do que sabido na família, sobretudo pelos netos mais gulosos, que Dona Gracinha costumava esconder um pote cheio desses biscoitos bem no fundo do seu guarda-roupa, para oferecer aos que iam lhe fazer uma visita. Mulher sábia e experiente, ela dizia que se deixasse à mostra, o pessoal comeria tudo de uma vez, sem qualquer cerimônia ou compostura. Pois bem, ontem, trabalhando em dupla, uma nora e uma neta dela produziram três tabuleiros de biscoitos feitos com nata comprada na feira de Jardim da Penha e farinha de araruta especialmente trazida de Itabuna. As duas concordaram que o gosto ficou parecido, mas que a consistência ainda precisa melhorar bastante, para que o biscoito se dissolva na boca. Só assim ajudará a matar as saudades dos biscoitos. Prometeram fazer outra fornada, tentando ajustar as proporções dos ingredientes.
Tendo escrito isso, devo dizer que consegui vencer o impulso de dar preferência às notícias amargas sobre as roubalheiras na nossa petrolífera, tráfico de influências ministeriais, obras paradas que enriquecem uns e bancam a eleição de outros, passeio de companheiro poderoso em avião pago por bandido reconhecido, previsões catastróficas no setor energético, assuntos que martelam diariamente a minha cabeça de eleitor. Bem sei que tudo isso pode ser tratado depois, mesmo porque as revelações sobre acontecimentos político-criminais ganharão ainda mais destaque na companha eleitoral.
Vitória, 16 de abril de 2014
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA
