Olimpíadas e bicicletas
Acompanhei o quanto pude as Olimpíadas de Inverno na Rússia. A diferença de fuso horário não me permitiu ver algumas das competições de que gosto mais, como aquele esporte parecido com bocha, que a nossa talianada joga por esse interior a fora. Vi provas, monótonas, de dezenas de abnegados atletas esquiando, contra o tempo, em circuitos fechados morro acima e ladeira abaixo. Quase todos caem ao chão, exaustos, logo após cruzarem a linha de chegada. Vi partidas de hóquei no gelo, corridas de alta velocidade em pistas ovais e provas de patinação artística, onde a tensão toma conta dos competidores e os faz chorar por erros cometidos, sentados ao lado de técnicos desapontados, diante de câmeras impiedosas. Patrocinados por empresas e governos, os atletas olímpicos vivem para ultrapassar limites.
Assisti provas de esqui em pistas com trajetórias em zig-zag, em ladeiras íngremes com rampas para saltos de todo tipo. Em uma delas os atletas chegam a voar, solenes e estáticos em seus esquis enormes, por mais de cem metros. Em outra, a rampa cheia de morrinhos de neve faz com que os joelhos do atleta se movimentem em ritmo frenético antes do salto. Gostei de ver a alegria dos rapazes e moças que competem sobre pequenas pranchas, em modalidades só agora introduzidas nas olimpíadas. Diferentes da grande maioria dos atletas, esses se divertem e se mostram solidários com os brothers que vencem ou perdem.
Por aqui, a caminho do aeroporto na manhã de domingo, vi pela primeira vez a pista exclusiva para bicicletas em pleno uso e fiquei bem impressionado com a quantidade de gente pedalando sob o sol quente. Solitários, em casais, em bicicletas velhas e novinhas, carregando cachorro na cestinha, andando ao lado do filho aprendiz. Quase todos usando capacete que, embora recomendável, faz alguns ficarem meio ridículos.
Digo isso porque sou do tempo em que bicicleta era meio de transporte e diversão e pouca gente tinha uma. A minha era azul claro, aro 26, sem para-lamas nem bagageiro. Freio, só na traseira, próprio para dar freadas fazendo curva com pé no chão, derrapando a roda traseira no barro duro. As ruas da Praia do Canto eram cobertas por uma base de solo-cimento para receber o asfalto, que só veio em meados da década de 70. Os postes eram no meio da rua. Não posso dizer que tenha sido um ciclista de competição, mas posso garantir que era uma grande emoção descer a chamada ladeira do Iate. Emocionante por que íamos em dois e sempre carregando o saco com as velas e as escotas do Tan Tan, o snipe da família Ramos. Toda destreza era pouca porque se viesse um carro não haveria como frear e, pra piorar, sempre tinha areia frouxa na parte de fora da curva, ponto de passagem obrigatória.
Em certas ocasiões, andar de bicicleta era também um esporte de exibição. Equilibrar com os pés na roda da frente, subir meio fio e tirar fininhos eram algumas das demonstrações de habilidade para conquistar admiradoras. Sem internet, celular, montoeira de carros e perigos em geral, a moçada se reunia nas calçadas, inclusive em torno de uma concorridíssima rede de vôlei na Rua Joaquim Lírio. Mas foi em frente da casa de Julita que passei dos limites. Tentando impressionar as garotas que conversavam na calçada, resolvi fazer uma manobra nova e radical: levantar a roda traseira ao máximo. A empolgação foi num crescente até que, lá pela quarta vez, fui de cara ao chão, com bicicleta caindo por cima de mim e tudo o mais. Um tremendo de um vexame que, felizmente, Carol não estava lá pra ver.
Vitória, 18 de fevereiro de 2014
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA
