Servicinho maneiro

Servicinho maneiro

Sou um usuário convicto de cadeira de balanço. Aqui em casa temos três delas. Uma austríaca, dessas de palhinha, uma desenhada por Tenreiro, bem baixinha, ambas de herança, e uma outra de lona, trazida da Paraíba, a minha preferida. É nelas que me sento para assistir TV, conversar, ler jornal e ficar pensando na vida. Raramente me sento em sofá, sempre mais quente, apesar de mais confortável.

Cadeira de balanço é algo que remete ao passado. Em uma das poucas fotografias de meu avô Chico Braga, ele está com cara de coronel do interior, sentado na que está na casa de mamãe. Guardo a imagem de minha avó Cesarina em uma delas, fazendo crochê.

Digo isso por estar às voltas com uma cadeira de balanço que minha filha caçula e o seu namorado trouxeram pra casa, morrendo de rir. É uma peça muito antiga, dessas que passam de uma geração para outra como um troféu. Disseram que ela estava coroando a caçamba cheia de entulho e queriam ver se eu seria capaz de recuperá-la.

A situação da cadeira era deplorável. Deve ter ficado anos debaixo de sol e chuva, recebendo pó preto misturado com maresia. As palhinhas estavam podres, muitas rachaduras e emendas descoladas, faltava uma das partes. Olhada de frente, mostrava-se empenada. Fora remontada de qualquer jeito. Um quebra cabeça e tanto.

Mas nada como um dia após o outro para quem pretende raspar e dar acabamento esmerado em mais de quinze metros de madeira roliça e em curvas, entortada com o calor do vapor. Disposto a enfrentar o desafio, comecei tirando a camada de pó preto com o jato d’água dessas bombas caseiras. Depois, cortei o que sobrou dos trançados e usei a furadeira para limpar os quase duzentos buracos por onde passam as palhinhas. Com muito custo, desaparafusei os aros do assento e do encosto, para facilitar a operação.

Feito isso, amolei duas das minhas faquinhas de cortar bambu e separei uma folha de lixa grossa. Com cuidado, acabei de quebrar um jarro d’água que estava trincado, em busca de cacos de vidro grandes, ferramentas poderosas para o serviço em madeira.

Esperei o sol baixar e comecei por calafetar os muitos estragos provocados por intempéries e maus tratos. Passei então a raspar a sujeira incrustrada em um dos braços, até que a cor natural da madeira voltasse à tona. Serviço pesado, feito com movimentos longos e vigorosos, ora com a lâmina de aço, ora com a quina do vidro. O uso da lixa enrolada em uma placa de borracha ajudava na limpeza e permitia descansar os dedos.

Gastei umas boas seis horas para raspar uma das duas laterais, formada por quatro partes, todas em curva, o que dificulta bastante o serviço e exige que se busque, o tempo todo, posição adequada para continuar. Isso, sem contar a dificuldade para limpar as áreas localizadas entre duas peças que se juntam em ângulo.

Para obter superfícies livres de ondulações e rugosidades foram horas e horas de movimentos suaves com cacos de vidro virgem e lixa fina. Na sequência, foi a vez de alisar a madeira com o cabo da faquinha, em busca de uma superfície polida com um brilho uniforme, base adequada para receber a cera de carnaúba. Enquanto cuido da outra lateral, já dá para levar as peças para o empalhador que trabalha em uma das esquinas da Praia do Canto.

Com tudo resolvido, restará equacionar um sério problema de engenharia: o que fazer para montar a cadeira sem o aro de madeira que fica entre o encosto e o assento. Mas isso é outro capítulo da história dessa cadeira, que recomeça na casa que seus novos proprietários estão pretendendo montar em breve.

Vitória, 19 de março de 2013

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

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