Quarenta anos depois

Quarenta anos depois

Quando cursava o último semestre do curso de engenharia mecânica decidi participar de um programa de capacitação de professores que Máximo Borgo, então diretor da antiga Escola Politécnica da Ufes, havia criado para tentar enfrentar a falta de pessoal qualificado na cidade. Vitória era terra de vida mansa e de pouquíssimos recursos técnicos. Escolhi fazer o mestrado no Rio de Janeiro, lugar de referência e usual destino dos capixabas na época.

Encontrei o Rio debaixo de grande efervescência, muita mesmo: a onda crescente dos que viviam de paz e amor contrastava com a insegurança total, gerada pela repressão política. Em cartaz, a peça Hair, trazida de Nova York, mostrava a nudez como arma de resistência. No Teatro Tereza Rachel, Zé Celso Martinez instigava a rebeldia com sua longa peça Gracias, Señor que, de tão interativa que era com a plateia, me fez entrar em cena no dia da estreia. Os Novos Baianos faziam muita gente sambar nos pilotis da PUC, na Gávea, e Caetano, de regresso ao Brasil, emocionou um teatro inteiro cantando London, London.

Na zona portuária, em construção e atrapalhando o trânsito, o viaduto que acaba de ser implodido pelo progresso atual, dava esperança de fluxo livre pra quem, como eu, tinha que ir, diariamente, de ônibus ou de carona, até a Ilha do Fundão. No começo, para assistir as aulas do mestrado e, no ano seguinte, para ensinar o pouco que sabia para a primeira turma do curso de engenharia de produção, o segundo que se implantava no país. Hoje já são mais quinhentos. Foi uma das experiências profissionais mais marcantes que tive na vida.

Um trabalho intenso, criativo e empolgante, realizado junto com Oswaldo Sevá e Ricardo Seidl, dois colegas da pós-graduação, na condição de monitores de um atento e silencioso professor descendente de japoneses, que conheci na cantina xexelenta que funcionava no Bloco H. Operante e inovador, Itiro Iida tinha vindo de São Paulo trazendo um método de ensino de alta performance, baseado em entrevistas individuais sobre conteúdos previamente indicados. Tendo sido aprovado na entrevista, o aluno passava a atuar como entrevistador de colegas, o que o ajudava a consolidar seus conhecimentos sobre a matéria. O rendimento médio da turma era animador.

Mas a novidade exigia grande esforço para sua efetivação, incluindo a preparação do material de apoio e a organização das atividades em sala de aula. Isso, sem falar na elaboração de apostilas para suprir a crônica falta de livros técnicos. Tenho na lembrança meses de muito trabalho e fortes emoções, que me fizeram deixar meio de lado a redação da dissertação de mestrado. Nas fotografias tiradas na sala de aula não é possível distinguir alunos de professores. A diferença de idade era mínima e as figuras humanas bem parecidas. Meus cabelos já eram compridos e a barba ainda era escura.

As fotos que recebi ao longo deste ano mostram uns vinte engenheiros de produção já maduros, em momentos de confraternização, com expressões que atestam amizade e satisfação por estarem juntos até hoje. Elas vieram acompanhadas do convite para o jantar de encerramento das comemorações dos quarenta anos de formatura, sempre renovado em simpáticas mensagens dos organizadores.

Movido por boas lembranças e muita curiosidade, fui fazendo uma colher pequena para cada um daqueles sorridentes ex-alunos que vou reencontrar depois de tanto tempo, dentre os quais estão amigos fraternos e colegas de trabalho. Achei por bem usar um mesmo pedaço de bambu amarelo que eu trouxe de muito longe.

Vitória, 26 de novembro de 2013

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

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