Manhã de abril

Manhã de abril

Domingo é dia de descanso, de deixar a vida correr solta, sem obrigações do trabalho, sem preocupações descabidas. Dizem que Deus trabalhou duro durante seis dias e usou o sétimo para ficar olhando e conferindo se estava tudo certo, as linhas verticais no prumo, o sol esquentando tudo que não estivesse à sombra das árvores e das pedras, os passarinhos experimentando as próprias asas e conseguindo voar com tranquilidade, as nuvens indo de um lado a outro com o vagar recomendado nos períodos de bom tempo, as águas dos mares subindo e descendo em sintonia com a posição da lua, as ondas, vindas em sequência de sete, arredondadas, virando espuma ao final do percurso, os ventos moderados vindos do quadrante sul trazendo a fresca que os homens bem merecem depois de um verão exaustivo, as folhas novas devidamente presas aos galhos e balançando ao vento, as flores mostrando suas cores delicadas, até então desconhecidas, as pedras enormes, opacas e impassíveis, nos seus devidos lugares, os peixes, em cardumes ou nadando solitários em busca do que comer, os primeiros sururus já agarrados na pedra, disputando espaço com as algas.

Convém dizer que era uma manhã radiante de abril, das últimas. Uma manhã de domingo, própria para sair de casa e andar pelas redondezas em busca de saúde e de satisfação, mas sem a pressa dos atletas nem a agonia dos que exercitam para mostrar as formas depois. Melhor, com a tranquilidade própria dos homens que aproveitam maré crescente pra pescar nas águas do canal, conversando sobre marés, iscas e anzóis, sempre de olho na ponta das varas, com a felicidade de uma amiga de juventude que passeia com o cachorro de sempre na coleira e mostra a neta risonha, no carrinho de bebê empurrado pela filha. Três ciclistas, em uniforme completo, pedalam forte para ver quem chega primeiro ao topo da ladeira. Um homem já beirando os oitenta, sem camisa e sem óculos, corre em ritmo possível, distribuindo sorrisos. Em silêncio, um casal acompanha dois rebocadores navegando em marcha lenta. Não sei onde foram parar as gaivotas e os maçaricos que frequentam as lajes de pedra à beira mar, mas os canários da terra estão por todo lado.

Caminhando em ritmo de domingo, conversando frouxo sobre a chegada iminente de mais um neto, rindo do fracasso da tentativa de fazer tapioca na frigideira, falando das pequenas flores de pano para o casamento de filha mais velha, lamentando a ausência das tartarugas no mar do final da rua, rindo da falta de um bom tema para a crônica da semana, programando um cineminha no final da tarde e o cardápio do almoço à base de verdura, grãos e saladas, chegamos ao formidável livro de fotografias que Vitor Nogueira havia lançado no começo da semana. São mais de cem imagens de águas, terras, pedras e montanhas, plantas e plantações, praias, areias e muitos barcos, céus abrangentes, nuvens e sóis, pontes e conventos, passarinhos e gente, muita gente. Trabalhando, pescando, rezando, dançando, fantasiada, tocando, cantando, sentada, plantando, indo e voando. E também animais, insetos e passarinhos, inclusive o olho de uma arara, que me fez ter saudades da que tive, faz tempo. Tudo daqui de perto, ao alcance do olhar de quem ande e arrepare nas coisas e pessoas por onde passe. As fotos estão lado a lado com os poemas que ele mesmo escreveu, inspirado em cada uma delas.

Se Vitor passasse por ali naquele momento e estivesse com suas lentes, certamente teria captado algumas daquelas imagens, à luz perfeita das manhãs de abril.

Vitória, 30 de abril de 2013-04-30

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

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