Lamaçal

Apresso-me a avisar ao leitor que esta não é uma crônica leve. Seu tom grave reflete a minha total indignação com a tragédia absurda provocada pela Samarco lá em Minas e que se desdobra aqui no estado. É mais um acontecimento que expressa os tempos que vivemos: descaso total do governo federal, indulgência conveniente do governo mineiro e descaramento da Samarco e da Vale, controladora da metade das suas cotas, preocupadas em minimizar suas responsabilidades e seus prejuízos.

As informações que colhi, mesmo que incompletas e imprecisas, atestam a escala gigantesca da tragédia, que se estenderá para muito além das lamentáveis mortes dos moradores e funcionários da empresa. Tudo indica que a Samarco matou o Rio Doce. A lama com os rejeitos, rica em minerais pesados, vai exaurir as populações de peixes, pitus, tartarugas e de tudo o mais que habita suas águas e os barrancos e, mais do que isso, extinguir as chances de repovoá-lo em décadas. Não imagino o que precisará ser feito para permitir o consumo da água por humanos e animais e seu uso seguro na agricultura. As primeiras previsões dos impactos sobre a vida em nossos mares também são alarmantes. Nos próximos dias, a mancha escura estará visível na boca do rio em Regência e, em seguida, ao longo da costa.

Li que a Samarco aumentou a sua produção em torno de um terço há pouco tempo, o que demandaria a ampliação da capacidade de armazenamento de seus resíduos industriais, providência de que não tive notícia. Sei que existem documentos oficiais que lhe impuseram medidas de acompanhamento rigoroso das condições de segurança de suas barragens. Barragens se rompem por vários motivos, sobretudo quando o limite da capacidade é atingido, situação que pode ser controlada a olho nu. Tudo faz supor que a empresa passou a operar sob risco elevado, deliberadamente. A divulgação da ocorrência de sismos de baixíssima intensidade na região, antes do rompimento das barragens, foi providencial para fazer crer que a tragédia teria sido provocada por um evento natural, incontrolável pela empresa. Tem gente acreditando nisso até hoje, porque ninguém explicou que terremotos de magnitude dois na escala Richter, muito frequentes por todo lado, são imperceptíveis aos homens, não derrubam prédios e, muito menos, destroem barragens. Sendo assim, a responsabilidade pelo rompimento é exclusiva dos homens poderosos, estejam eles na Samarco ou nos órgãos públicos responsáveis pela aprovação dos projetos e pelo controle das condições de funcionamento.

É mais do que sabido que empresas de mineração financiam campanhas políticas e de marketing que, em última instância, viabilizam suas operações a custos bem menores. São “investimentos estratégicos” que lhes asseguram o direito de fazer o que jamais poderia ser feito contra a natureza e, em especial, contra as populações de seu entorno. São de altíssima rentabilidade. Nessa batida, o governo de Minas debochou de todos nós ao anunciar que suspendeu as operações da Samarco, como se ela ainda tivesse condição de funcionar sem os seus reservatórios de rejeitos industriais. Aqui em Vitória, temos vivido sob o pó preto do descaramento político-empresarial que se instalou há décadas e que se renova a cada eleição. Torço para que a tragédia que começou na semana passada sirva para dar um fim ao jogo cínico que vigora por aqui, incluindo o minério de ferro lançado no mar de Camburi pela Vale. Que os prejuízos e constrangimentos da Samarco sirvam para demonstrar que crime ambiental não compensa.

Vitória, 11 de novembro de 2015

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

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