Festa de casamento de filha

Festa de casamento

Poucos casais têm cinco filhos como eu e Carol. É coisa do tempo antigo, quando a vida era mais fácil e bem mais barata, o tempo era mais folgado, percorria-se distâncias mais curtas e havia empregada que dormia em casa. Criar filhos era algo mais descomplicado, sem grandes teorias e a obrigação de usar cadeirinha no carro. Passei a vida de adolescente e comecei a de adulto em casa de muita gente, ao lado de quatro irmãos e de uma mãe viúva. Com dinheiro curtíssimo, a compra de uma panela nova e o conserto da pia tinha que esperar o salário seguinte. Mas nem por isso. A casa na Madeira de Freitas era ponto de encontro dos amigos da rua e lugar de convívio intenso e barulhento dos Mamíferos, a banda de rock do nosso quintal. A nossa casa de hoje é também um lugar movimentado, onde sempre está acontecendo alguma coisa boa, mesmo depois que quatro dos filhos já não morem mais conosco.

Pois bem, no último sábado, foi a vez de festejar o casamento da filha mais velha com um paulista sorridente, corintiano e trabalhador, como convém. Mesmo morando longe, Manaíra fez questão começar a vida de casada em cartório com uma festa na casa dos pais. O casório será complementado em igreja lá em São Paulo e com festa em um lugar escolhido a dedo.

Aqui, os preparativos começaram com boa antecedência. Mobilizaram todas as pessoas da casa e uma tia da noiva. Consumiram dezenas de interurbanos e de troca de mensagens pela rede. Uma decisão radical havia sido tomada coletivamente meses atrás: as comidas e os adereços seriam todos feitos em casa, no mais puro estilo de antigamente, quando as pessoas se juntavam em torno de uma mesa e diante do fogão para fazer o que tivesse que ser feito para agradar noivos e convidados. E foi exatamente assim que aconteceu por aqui. Uma trabalheira sem fim.

As últimas duas semanas foram consumidas com atividades de planejamento detalhado, escolhas dificílimas e muitas horas de conversa frouxa. Nos primeiros dias de maio gastamos manhãs e tardes engomando, cortando e colando retalhos para fazer umas quinhentas flores de pano como lembrança da festa. Como era de se esperar, a mãe da noiva resolveu aproveitar para dar uma boa arrumada na casa, comprar jogo de cadeiras de jardim, dar uma revigorada nas plantas, lavar as paredes, tirar o pó preto incrustado no tronco dos pés de graxa e acabar com o vazamento no telhado da pérgula. Sempre torcendo para não chover nem ventar forte. A noiva chegou dias antes junto com a irmã, a tia e a prima de Belo Horizonte, que vieram ajudar.

Durante a sexta feira, a movimentação se concentrou na cozinha, entrando pela madrugada. Foi a vez de cortar temperos, limpar e assar carne e peixe, preparar massa e recheios para as quiches, produzir geleias, fatiar queijos e presuntos defumados comprados na feira, montar cesta com frutas de estação, enrolar brigadeiros de chocolate amargo, de ver Bebel, a filha do meio, preparar seu tradicional quindão e a caçula Diana fazer pavlovas com merengue e morango e, cheia de estilo e com apoio da mãe do noivo, enfeitar o bolo com rosas pequenas, livre da tal pasta americana que esconde as imperfeições. Do lado de fora, dava gosto ver a serenidade da tia Beatriz arranjando, milimetricamente, flores coloridas e folhas verdes em tachos de cobre. Isso, depois de coordenar a arrumação da festa, nos mínimos detalhes. Até São Pedro tratou de ajudar, dando de presente um dia perfeito para que os noivos pudessem compartilhar sua alegria com os parentes e amigos mais próximos.

Vitória, 14 de Maio de 2013

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

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