Enquanto isso…
Agora já posso dizer que a tal cadeira de balanço está pronta, perfeitamente lustrada e sendo utilizada pelos moradores da casa e pelos visitantes curiosos. O serviço ficou muito bom, digno de elogios e virou assunto de conversa sobre trabalho manual, poder de concentração, paciência, passatempo, cera de carnaúba, tipos de palhinha, caco de vidro, tiras de borracha e por aí afora. Teve até quem dissesse que a cadeira tinha virado um personagem.
Pois bem, na semana passada encontrei um amigo de longa data na porta de uma loja que vende frutas, legumes e verduras, todas, a cada dia mais bonitas e mais caras. Ele é jornalista e escreve crônicas deliciosas. Ao me ver na fila do caixa, debochado que só, perguntou pela cadeira, e com cara séria foi logo declarando que estava com medo de que eu parasse de fazer colheres pra ficar pegando serviço de limpeza de cadeira velha. De quebra, sugeriu que escrevesse sobre como é bom ficar sentado na varanda, balançando pra frente e pra trás.
Nesses dias em que andei agarrado na cadeira, pensei muito na velocidade com que fatos relevantes se sucedem, tornando quase impossível acompanhar o que se passa em volta. Como deve estar acontecendo com muita gente, tem hora que me sinto meio atordoado, sem conseguir processar devidamente o que me chega pela mídia.
No plano das brigas de cachorro grande, por exemplo, andaram denunciando que ministros e diplomatas estavam ajudando a montar uma ação entre amigos para levar para o estado do Rio o estaleiro que estão construindo em Barra do Riacho. Sem maiores detalhes, foi anunciado que o mega projeto que seria instalado no sul do estado tinha ido pro vinagre, por decisão dos seus idealizadores. O Congresso, por sua vez, detonou muitas expectativas de gastança com os royalties de petróleo, mas o STF tratou de bloquear a efetivação da decisão do plenário. Provisoriamente.
Elegeram um novo Papa para tentar sanar a má fama da cúpula da sua igreja e reverter o processo de perdas de fiéis. Em paralelo, acompanhei o bafafá que colocou sob os holofotes da fama um aspirante a líder nacional, ajudando a atiçar uma espécie de guerra santa que vai se instalando no país, movida a eventos, prisões, processos e tudo o mais.
Aprovaram a PEC das empregadas domésticas, criando uma formidável apreensão em milhares de pessoas que trabalham e que contratam. É a lei fazendo avançar na marra o que vinha evoluindo aos poucos. As incertezas só não preocupam os advogados, animados com a expansão do potencial de processos trabalhistas.
Também está impossível acompanhar o prende e solta de prefeitos, vereadores e deputados. O que pouco mudou foram as obras sem fim no terminal do aeroporto.
Em pratos menores, o tomate virou a bola da vez, realçando as cores do processo inflacionário, justificando o aumento dos juros de cada dia, animando a campanha presidencial que vai tomando corpo. Talvez em função da potência das redes, muitas pessoas começaram a repetir que carambola, uma das minhas frutas preferidas, faz mal para os rins. Um amigo mineiro contou que o papagaio dele adora carambola.
Durante essas semanas, li um bom pedaço de “Civilização do Espetáculo”, de Vargas Llosa, e assisti o primeiro capítulo de “O século do Ego”, documentário feito pela BBC. Tratam do uso deliberado da força do marketing para criar valores, condicionar escolhas e gerar comportamentos de massa, tanto no plano político como no da economia. Reforçaram a minha antiga certeza de que sempre tem alguém pretendendo distrair ou enrolar a gente.
Vitória, 16 de abril de 2013
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA
